Tapas – entusiasmo ardente

Literalmente traduzido como “fogo” ou “calor”, tapas é o uso disciplinado da nossa energia. Porque a palavra disciplina tem a conotação negativa de auto-coerção, tomo a liberdade aqui de traduzir este preceito central como “entusiasmo ardente”. Quando podemos gerar uma atitude de grande entusiasmo, a força das nossas convicções gera um impulso que nos leva adiante. Todos nós já nos apercebemos de como uma tarefa aparentemente chata ou desagradável como a limpeza da casa pode ser transformada quando trabalhamos com vigor e impulsão. De repente, a limpeza torna-se divertida, transportar cargas pesadas pode ser revigorante e limpar a mobília absorvente. Tapas é uma forma de direccionar a nossa energia. Como um feixe de luz focado através do escuro, tapas mantém-nos na pista para que não desperdicemos o nosso tempo e energia em questões supérfluas ou triviais. Quando essa energia é forte, também o são os processos de transmutação e metamorfose.

Não somos todos igualmente possuídos da energia disciplinada de tapas. Algumas pessoas precisam de trabalhar mais intensamente para acender as chamas de tapas, e é nestes momentos que é útil alguma ajuda dos pais, juntamente com um bom sentido de humor. As nossas acções são então guiadas por uma parte do eu que sabe o que é bom para ele, e que é auxiliado pela capacidade de rir em face das suas neuroses, letargia ou vícios. Até mesmo as mentes de laser entre nós têm dias em que é preciso um ato de vontade para sair da cama, para voltar aos estudos ou retirar a mão que alcançaria uma segunda fatia de bolo. Se tem pouco entusiasmo, pode ser extremamente útil procurar a companhia daqueles que têm esta qualidade em abundância. Participar de uma aula com um professor inspirador ou praticar Yoga com um amigo que já estabeleceu uma prática forte, pode ajudar a estimular tapas dentro de si mesmo. Quando activamos esta energia da disciplina, as brasas de tapas tendem a gerar mais e mais calor e momentum, o que torna cada esforço subsequente menos difícil. A analogia de um fogo é apropriada para este preceito.Quando um incêndio termina é necessário  um grande esforço para iniciá-lo novamente. Quando um fogo se inicia, as brasas provisórias devem ser alimentadas em intervalos regulares ou o fogo morre. Mas quando o fogo está alto, é fácil de sustentar.

Para que finalidade maior precisamos de tapas, ou disciplina? Pema Chodron, autor de muitos livros sobre budismo tibetano,  diz-nos que “o que disciplinamos não é nossa” maldade “ou nossa” injustiça “. O que disciplinamos é qualquer forma de escape potencial da realidade. Quando não vivemos nesta consciência disciplinada, as nossas tácticas voluntárias de fuga criam um ciclo interminável de mais sofrimento para nós mesmos. Essas tácticas de fuga podem temporariamente aplacar os nossos sentidos, mas criam uma forma profunda de infelicidade. Em algum nível sabemos que não estamos a ser fiéis a nós mesmos ou ao nosso potencial. Disciplina é ter bastante respeito por si mesmo para fazer escolhas que verdadeiramente nutrem o nosso bem-estar e proporcionam oportunidades para o crescimento expansivo. Longe de ser uma espécie de punição medicinal, tapas permite-nos dirigir a nossa energia para uma vida de significado o e que é emocionante e agradável.

Tradução livre de um texto da Professora Donna Farhi

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Tapas e o poder interno

Tapas é uma das prescrições do código de ética do yôgin. É um termo em Sânscrito, que deriva da raiz tap, que significa calor ou ardor. Designa a auto-superação, num esforço constante do indivíduo para se melhorar em todos os aspectos e circunstâncias. Ao invés de se poder associar a algum tipo de disciplina fundamentalista, é muito mais o hábito de abraçar desafios escolhidos por si mesmo, pondo-se à prova e levando mais longe as suas potencialidades. Além de ser estimulante, é de natureza extremamente criativa.

A metodologia do Yôga, no caminho para a expansão da consciência, pretende aproximar as capacidades humanas do nível da excelência. Muitos são os obstáculos, sobretudo sob a forma de condicionamentos culturais e individuais mais ou menos enraizados, que nos prendem a padrões de comportamento ou de concepção que provavelmente nunca questionámos. Será que os queremos? Será que temos a força suficiente para os mudar se não os quisermos? São questões directamente relacionadas com a liberdade de escolha e a força para vencer obstáculos. Sobre esta última há ainda que medir o que é mais forte, eu ou o obstáculo?

Durante a prática das técnicas de Yôga, observamos que podemos ir cada vez mais além, tal só depende da regularidade da prática e do esforço e aplicação da vontade na sua execução. Ora como nenhuma das técnicas é meramente física, essa aplicação da vontade é também exercida sobre as emoções e a mente, reeducando-as em contínuo. Esse é já um desfio tremendo, mas sendo o Yôga uma filosofia de vida, o desafio maior é fazer exactamente o mesmo exercício na vida diária, fora da sala de prática. Trata-se de aceitar e compreender as suas fraquezas para crescer através delas, manter a mente aberta para escolher o que quer para si, estabelecer os seus próprios limites com base na sua ética e autoconhecimento e até ser capaz de dizer não quando todos os outros dizem que sim, sem recear a opinião alheia.

O conceito de tapas não envolve que o indivíduo se force a coisa alguma, mas antes que adquira a força para se levar até onde quiser.  Requer conhecimento, desenvolve a consciência da liberdade individual e confere segurança interna e um poder cada vez maior sobre si mesmo. É em boa medida o calor ou fogo que tempera o aço da vontade.

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Texto daqui: Ady Estoril