Dia 3 de Dezembro – Shiva

Calendário do Advento
Cultura do Yoga

A tradição, as lendas e mesmo as escrituras antigas declaram que o Yoga foi criado por Shiva. 

Na mitologia hindu, Shiva simboliza a destruição, a renovação, a transformação. É através dele que o mundo (e todos nós) evoluí, deixando o passado para trás para dar lugar ao novo. Só poderia partir dele, portanto, a criação do Yoga, afinal, esta prática conduz à transformação física, mental e emocional,  rumo à evolução espiritual.

Shiva possui vários nomes, os principais são: Pashupati, Nataraja, Shambo, Shankara, Ardharísshvara, Mahadeva, Bhikshatana, Veenadhara, Yogeshvara, entre outros. Na forma de Shiva Nataraja, ele aparece como o Rei (raja) dos Dançarinos (nata).

 

Estatueta de Shiva Natarája

Com seus cabelos entrelaçados e esvoaçantes, que simbolizam o movimento, dança dentro de um círculo de fogo, símbolo da renovação. Através de sua dança, ele cria, conserva e destrói o universo.

Aro em chamas: simboliza a dança da natureza.

Quatro braços: simbolizam o movimento.

Damaruna mão direita Shiva carrega um damaru, pequeno tambor em forma de ampulheta, que simboliza o princípio do som.

Agni: a mão esquerda Shiva segura o fogo (agni) que transforma e destrói.

Abhaya mudra: A mão direita à frente forma o abhaya mudra, gesto de afastamento do medo, da protecção e das bênçãos.

Gajahasta mudra: A mão que aponta para o pé esquerdo erguido está em gajahasta mudra, que imita a tromba do elefante. A tromba tem a simbologia do discernimento: o elefante sabe discernir a força que deve usar quando arranca uma árvore ou quando apanha uma palha do chão. No caminho do autoconhecimento é preciso discernir o que é real do que é irreal.

Muyalaka: o pé direito de Shiva esmaga um anão maléfico: o demónio Muyalaka (ou Apasmara). Aqui está representada a vitória de Shiva sobre a ignorância. Todo o conjunto repousa num pedestal com a forma de lótus.

Cabelos de Shiva:  estão emaranhados e esvoaçantes, simbolizam o movimento, pois tudo no universo está em constante movimento. Nos cabelos de Shiva está a deusa Ganga, que simboliza o Rio Ganges. Enquanto o deus dança, ela desce à Terra através dos seus cabelos esvoaçantes. No lado esquerdo do cabelo de Shiva está a lua crescente, que simboliza que Shiva está além das emoções, ele não é manipulado pelos humores como os humanos. O cabelo enrolado no topo da cabeça de Shiva, significa que ele é o senhor do vento, Vayu, e tem o controle da respiração.

Cobra: a cobra enrolada na cintura de Shiva simboliza a imortalidade e a energia do fogo.  No Yoga, a cobra também representa a energia do fogo, chamada kundalini.

Apesar do seu corpo estar em movimento, o rosto de Shiva está sereno, pois embora vivamos na agitação do mundo devemos manter-nos ligados à nossa verdadeira natureza interior.

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Brahmáchárya

De todos os preceitos, brahmáchárya é o menos compreendido e o mais temido pelos ocidentais. Muitas vezes traduzido como celibato, este preceito causa estragos nas mentes e vidas daqueles que interpretam brahmáchárya como um ato necessário de supressão sexual ou sublimação. Todas as tradições espirituais e religiões têm lutado com o dilema de como usar a energia sexual com sabedoria. Praticar brahmáchárya significa que usamos a nossa energia sexual para regenerar a nossa conexão com nosso ser espiritual. Isso também significa que nós não vamos usar essa energia de uma forma que possa prejudicar o outro. Não é preciso ser um génio para reconhecer que manipulando e usando outros sexualmente se cria uma série de maus sentimentos, como a dor, o ciúme, o apego, ressentimento e ódio. Este é um domínio da experiência humana que pode despertar o melhor e o pior nas pessoas, por isso, os antigos yogins faziam um grande esforço para observar e estudar esta forma particular de energia. Pode ser mais fácil de entender brahmáchárya se removermos a designação sexual e olharmos para ela apenas como uma energia. Brahmáchárya significa fundir a energia da pessoa com o todo. Enquanto a comunhão que podemos experimentar através de fazer amor com outro nos dá uma das mais claras experiências desse entrosamento de energias, esta experiência é para ser estendida como uma espécie de celebração omnidimensional de Eros em todos suas formas. Se nós conseguimos isso através do sentir a respiração que acaricia os nossos pulmões, através do orgasmo, ou através do celibato não é importante.

A queda da graça de inúmeros gurus que, embora advertindo os seus devotos para praticar o celibato, foram brutalmente abusados pelo seu próprio poder sexual é motivo para considerar mais profundamente a adequação de tal interpretação. Quando qualquer energia é sublimada ou suprimida, ela tem a tendência a sair pela culatra, expressando-se de forma negadores da vida. Isso não quer dizer que o celibato em si é uma prática doentia. Quando abraçada com alegria a contenção da energia sexual pode ser extremamente auto-nutritiva e revitalizante e, no mínimo, pode proporcionar uma oportunidade para aprender a usar essa energia com sabedoria. Quando o celibato é praticado desta forma, não faz sentido parar  de o fazer. Em última análise, não é uma questão de se usamos a nossa energia sexual, mas de como a usamos.

Ao olhar para o seu próprio relacionamento com a energia sexual, examine se as formas de expressar essa energia o trazem para mais perto ou mais longe do seu eu espiritual.

Tradução livre de um texto da Professora Donna Farhi

Shiva Natarajásana

Shiva Natarajásana é o nome de uma das posições de equilíbrio mais estéticas do nosso acervo de procedimentos orgânicos. É a posição que faz alusão à estátua de Natarája. Apesar de inspirada na estátua, copiar a escultura ao fazer o ásana, pode induzir a alguns erros. Para corrigi-los, devemos ficar atentos a uma série de detalhes.

A posição dos pés deve obedecer a referência da foto acima. O pé que toca o chão deve ficar de lado (ou a 45 graus) em relação ao espectador. Jamais de frente. O pé elevado fica fletido e com os dedos tensionados para cima. Trata-se de uma exceção pois nos demais ásanas esse pé deve ficar estendido.

Os joelhos devem ficam bem afastados um do outro. Para isso, a perna elevada deve ser projetada para fora, com esse joelho bem alto. Em longas permanências, esta perna elevada começa a se cansar e vai caindo aos poucos. Uma boa execução deve ter o joelho da perna base bem flexionado e o outro bem elevado.

Os braços devem ficar sempre voltados para o lado oposto da perna elevada, como que a proteger o flanco. Os punhos se tocam e o abhaya mudrá deve ser executado com firmeza. Tanto o mudrá quanto o ásana devem ser feitos de acordo com o ângulo mais didático para apresentações e fotos. Nos treinamentos de Shiva Natarája nyása, o treinamento de movimentação deste ásana é considerado como a principal execução.

Abhaya mudrá

Abhaya – 1. Ausência de medo; 2. sentimento de segurança.

Coincidentemente ou não, apesar da ordenação alfabética, o primeiro selo é também um dos mais importantes para o nosso estudo. O abhaya mudrá é o gesto mostrado por Shiva em seu aspecto Natarája. Existem muitas associações, técnicas e histórias a serem contadas por conta disso.

Com as duas mãos bem espalmadas e mantendo os polegares colados às mãos, una os punhos com a palma da mão de cima e a as costas da mão de baixo voltadas para frente. Os dedos das mãos de baixo devem estar apontados para o chão, alongando bem o punho. Ao executá-lo, não centralize as mãos com o corpo. O gesto fica ligeiramente deslocado para o lado da mão de cima e você pode alternar a posição das mãos para encontrar a posição que lhe confira o melhor encaixe.

Sua reflexologia está associada ao ato de dissipar o medo, como o próprio nome do mudrá indica. Dessa forma, é um gesto muito ligado ao sentimento de proteção. Também pode representar o início de algo, o começo da prática de Yôga.

Sua execução pode ser feita com movimento. Nesse caso, a mão deixada por baixo deve descrever movimentos laterais, deslizando-se de um lado para o outro, da esquerda para direita e da direita para esquerda, retornando ao encaixe do gesto. A mão de cima faz um movimento da frente para trás e de trás para frente. A mão de baixo ganha o significa do de estar como que a remover obstáculos diante do yôgin e a mão de cima expõe o simbolismo de afastar o medo.

Sequência de imagens mostrando o movimento das mãos.

Note que todas as vezes em que as mãos se afastam uma da outra, existe uma expansão da caixa torácica. Associe a ela então o ato de inspirar. Como existe também uma pequena contração da mesma área quando as mãos se aproximam, aproveite para expirar. Combinando essa sutil movimentação das mãos com o movimento respiratório, podemos facilmente sentir no tato das mãos a criação de um campo magnético, desencadeado pela vivência deste gesto.

Do Blog Gesto Ancestral do Instrutor Vernon Maraschin

Vários problemas, uma única solução

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Shiva, o todo-poderoso deus hindu, aparece em uma das suas representações mais conhecidas, a Natarája, dançando. Enquanto baila, com um dos pés subjuga um pequeno demônio. Vale lembrar que esse bailarino um dia viveu e morreu no Noroeste da Índia e por toda a sua contribuição para a cultura local passou à mitologia como uma divindade.

O aspecto do mal no qual ele pisa, está representando o maior de todos os adversários humanos na visão indiana. Esse pequeno mostrengo se chama em sânscrito – antiga língua indiana que influenciou praticamente todos os idiomas ocidentais – Avidya. O nome provem da palavra vidya, que significa conhecimento, sabedoria. Como a letra A aparece antes, e assim como no português pode representar uma partícula de negação, temos como o maior desafiante humano o não-conhecimento ou a ignorância.

Mas que tipo de ignorância é essa que vencida por Shiva o tornou sublime a tudo?

Qualquer tipo de desconhecimento é prejudicial, mas como não podemos ter toda a informação do mundo, isso sim seria prejudicial, ele se concentrou no ponto mais existencial e importante para a vida, o conhecimento daquilo que realmente somos.

Ele conseguiu discernir que por trás de tudo o que vemos, sentimos e pensamos há uma consciência e que ela é que é o nosso verdadeiro EU. No entanto, como estamos muito envolvidos com nosso ego, pensamentos e emoções, acabamos por achar que é isso que somos, e é essa a mais profunda ignorância humana.

Quando o ser humano se conhecer melhor boa parte dos problemas que existem hoje na terra desaparecerão. Quando nos conhecermos mais passaremos a cuidar mais dos nossos hábitos e com isto melhoraremos nossa saúde. Nos certificaremos que ajudando outras pessoas a se descobrirem, estaremos ampliando não apenas a felicidade delas, mas a nossa também . Quando aprendermos sobre nossa total ligação com a natureza, o homem parará de destruí-la, pois terá consciência de que nós somos parte dela e ela de nós. O grande desafio do próximo milênio é o reconhecimento da verdadeira essência que somos, conseguiremos isto através de tecnologias da consciência, entre elas posso citar com atestado prático o Yôga, o Tantra e o Sámkhya.
No entanto, acredito que cada um deva buscar a sua forma de se aprimorar e ser cada vez mais o que verdadeiramente é.

Por Daniel De Nardi no Blog Assim falou De Nardi

Mitologia Hindu I

O nascimento de Ganêsha

Conta a lenda que após Shiva e Parvatí se casarem, mudaram-se para viver em isolamento em meio as cavernas do Monte Kailash. Como já era de costume, Shiva, freqüentemente, sentia a necessidade de ficar sozinho e por isso, “perdia-se” por longos espaços de tempo nas gélidas florestas dos Himalayas; com isso, Parvatí, sentia-se cada vez mais abandonada.

Certo dia, a deusa banhava-se no lago Manasarovar, próximo do local onde residia. Tudo estava como de costume, quando em um ato de extrema vontade, ela começa a esfregar sua própria pele com pasta de sândalo (conhecida por seus efeitos afrodisíacos); de repente, do meio daquela poeira toda, brota um garoto que é logo batizado por ela de Vinayaka (aquele que é dito artificial). Identificaram-se em primeira instância, voltaram juntos à gruta e pararam em frente à caverna. Parvatí lhe disse: você é fruto de minhas entranhas, está aqui pra me fazer companhia e proteger, portanto, pegue este clava, fique guardando a entrada e não deixe ninguém perturbar minha meditação.

Algumas primaveras depois, Vinayaka avista um vulto se aproximar; era o próprio Shiva que retornava de seu retiro. Ao tentar passar por Vinayaka, é barrado pelo garoto. Shiva o questiona se ele sabe com quem está falando e, não obtendo nenhuma resposta do filho de Parvatí, Shiva, estupefato e irritado, conclama seu exército, os ganas, para auxiliá-lo a retirarem o moleque atrevido dali. Inicia-se uma pequena batalha. Shiva assiste incrédulo seu exército ser derrotado por um só garoto e, em um momento de descuido de Vinayaka, Shiva o degola com um golpe de seu tridente.

Neste momento, Parvatí, desconcentrada com toda aquela barulheira, saiu da gruta para checar o que estava acontecendo. Ao aproximar-se, avista seu filho caído ao chão, decapitado, enquanto Shiva limpava o sangue dos dentes de seu tridente. “O que fez com meu filho, o que fez com meu filho?”, bradava desesperadamente Parvatí. Shiva, ao perceber a gravidade da situação, ordenou que sua trupe trouxesse a cabeça do primeiro animal que encontrassem na floresta. Por obra do acaso, naquele exato instante passava por perto, um elefante, cuja cabeça foi eleita para ser a nova de Vinayaka, fazendo-o recobrar a vida. Shiva então, o rebatiza com um novo nome: Ganêsha (gana exército, isha, senhor), o senhor dos ganas.

Há um outro começo para este purana: As amigas de Parvatí reclamavam a ela que a trupe de Shiva só obedecia fielmente a ele e que precisavam de alguém do lado delas. Parvatí, para não entrar em conflito, não lhes dava ouvidos, até que certa vez Shiva adentrou com Nandi, sua fiel montaria, os aposentos de Parvatí, enquanto esta se banhava. Totalmente constrangida, decidiu criar um guardião…

O momento da batalha também difere entre uma versão e outra. Percebendo que estava difícil para o garoto, as companheiras de Parvatí, enviaram duas deusas para protegê-lo. Uma delas possuía uma boca enorme na qual engolia tudo o que era lançado sobre o rapaz, enquanto a outra lançava de volta os projéteis. Desta vez o menino recebe o nome de Vighnêshvara, o senhor dos obstáculos.

Elucidação: dentro da cosmogonia Tântrica, a dualidade primordial da Criação é formada por Shiva e Shaktí, principio imutável, amórfico, imortal e matéria cinestésica, criativa, simbolizada pela própria natureza, respectivamente. Neste mito, a esposa de Shiva, Párvatí, representa Shaktí, a natureza ilusória, na qual estamos todos imersos e deslumbradamente presos. Parvatí, símbolo de matéria perecível dá a Ganêsha um corpo físico e este, no entanto, não permite a entrada do pai na gruta, pois não o reconhece; afastou-se tanto que não mais conhece o próprio self, a realidade suprema. Tanto apego à mãe, simbolizada pela matéria (Shaktí) o faz defendê-la bravamente contra os avanços do pai, simbolizado pela essência primeva (Shiva). Vinayaka luta com Shiva pois não quer perder sua personalidade, moldada pela vivência fenomênica de Parvatí. Shiva decepa a cabeça (ego, mente, arrogância) de Vinayaka e insere uma nova no lugar. Esta nova cabeça do paquiderme representa o renascer daquele que está em busca do autoconhecimento, o alvorecer do mais puro e profundo entendimento de si próprio. Ganêsha acaba por se tornar um símboloperfeito da inteligência e memória (cabeça de elefante), da prosperidade (corpo redondo e ventre proeminente), da predileção ao escutar do que falar (orelhas grandes e boca pequena), do discernimento (tromba), do removedor de obstáculos (tamanho), daquele que transcendeu o mundo dos opostos (por ter uma de suas presas quebrada).

Texto extraído do livro Contos de Shiva do Professor Fábio Euksuzian