A revolução silenciosa

Hoje partilhamos um texto do Prof. Joris Marengo

Significado superlativo do termo Yôga

A palavra Yôga é um termo sânscrito, uma língua morta como o latim. É importante ressaltar que os indianos pouco conhecem o sânscrito, assim como os italianos não sabem nada da sua língua mater. O vocábulo tem como radical a palavra yug, que significa unir:

Esta união se faz em três níveis:

Consigo mesmo: existe uma unidade, uma cola, que integra corpo, mente e emoções, mas que devido ao modelo de educação, crenças e paradigmas que assimilamos, não é percebida.O Yôga desvela a unidade entre esses vários aspectos que constituem o ser humano. Com o decorrer da prática, ele produz uma potencialização da interconectividade dos três aspectos acima no praticante. Esta amplificação psicofísica é mais bem percebida pelas pessoas que convivem com ele, do que pelo próprio. Afloram habilidades naturais, porém incomuns. Ou seja, faz parte do acervo de características humanas, mas a maioria de nós não estimula o seu florescimento: reflexos físicos e mentais muito mais rápidos, a intuição, aumento da capacidade imunológica, potentíssima concentração, disciplina natural dos instintos e outras mais.

Com os demais seres vivos: a cola que surge pela prática, dissolve e remodela visões padronizadas da realidade e suas interpretações. Com isso, o yôgin, que é como se denomina o praticante, escolhe novos paradigmas, mais inteligentes, influenciados por um código de ética milenar. Ao reconstruir a maneira de relacionar-se com os estímulos vindos do exterior e a forma de como eles interferem e modificam a sua vida interior, emocional e mental, o yôginacessa novos canais de conectividade com os seres humanos, mamíferos e outros milhares de formas de vida que coabitam conosco o mesmo planeta. É fundamental alertar que estas percepções não têm nenhuma conotação mística. São fenômenos neurológicos absolutamente naturais, acessíveis a qualquer um que pratique um Yôga autêntico, decorrente das alterações neuro-químio-psico-fisológicas promovidas pela práxis disciplinada.

Com o universo: a continuidade da prática acaba por produzir uma expansão desta percepção de unidade, da cola, incluindo o praticante, a realidade que o cerca, objetiva e subjetiva e finalmente, uma experiência neurológica de expansão da consciência denominada pelos yôgis de samádhi ou hiperconsciência, definido como o mais elevado estado de autoconhecimento possível aos macacos nús.

Um escalonamento da consciência

O que é a consciência? Nada melhor do que olhar o que o dicionário Houaiss tem para nos dizer sobre o significado da palavra: “faculdade por meio da qual o ser humano se apercebe daquilo que se passa dentro dele ou em seu exterior; a capacidade de conhecer a si mesmo de modo imediato e integral, estabelecendo dessa maneira uma evidência irrefutável de sua própria existência e, por extensão, da realidade do mundo exterior”.

A consciência, conforme definida acima, só é experimentada pelo mamífero humano. Porém, o seu surgimento na nossa espécie ainda é fonte de especulação. No seu delicioso livro O Gene Egoísta, o autor Richard Dawkins faz uma reflexão no mínimo curiosa: “ … a evolução na capacidade de simular parece ter culminado na consciência subjetiva. Porque isso aconteceu é para mim o mais profundo mistério com o qual se defronta a Biologia moderna…. Talvez a consciência se origine quando a simulação que o cérebro humano faz do mundo se torna tão complexa que precisa incluir um modelo de si mesma…”.

O Yôga há milênios escalonou a consciência em:

  • Hiper ou megaconsciência, que compõe o mais refinado, potente e expandido estado de percepção já experimentado por qualquer ser vivo. É a meta, a aspiração de todo yôgin;
  • Supraconsciência, meditação ou intuição linear, que proporciona ao yôgin, insightscom dimensão, provocados pelo fenômeno da supressão dos pensamentos;
  • Mental, composto pelos recursos da memória, raciocínio, capacidade de julgamento, associações de idéias e palavra, característicos do macaco humano;
  • Emocional, estado de consciência típico dos demais mamíferos e que ainda domina a cena comportamental do Homem. Poderíamos dizer que somos um animal residualmente instintivo, intensamente emotivo e primitivamente mental. A prática do Sistema DeRose altera para além do mental estas concentrações consciênciais, conduzindo o macaco predador para muito acolá dos patamares da normalidade condicionada.
  • Físico, que abarca toda a realidade tangível, auditiva, visível, gustativa e olfativa, ou seja, o patamar material, denso e sensitivo.

Nossa intenção, ao apresentar este escalonamento, não é o de induzir o Leitorcrer nesta disposição consciencial, mas tão somente o de lhe oferecer uma opção evolutiva puramente biológica e que lhe oportunizará agregar novas habilidades competitivas, como por exemplo, a intuição.

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Leia outros artigos do autor aqui: Blog do JoJó

Sobre o tão violentado ahimsá

A PIOR AGRESSÃO É AQUELA QUE PERPETRAMOS A NÓS MESMOS
FÁBIO EUKSUZIAN

Culpa de Gandhi! Não, não é uma música de Gilberto Gil e seu bloco carnavalesco Filhos de Gandhi; é uma simples constatação de que o alicerce da opção do Mahatma de não entrar em conflito bélico com os britânicos para obter a independência da Índia em 1947 se tornou a coqueluche do momento. É, ele mesmo, o tão comentado ahimsá, termo sânscrito que significa literalmente não injuriar ou machucar. Tem sido bastante disseminado nas mais diferentes áreas do conhecimento humano. Mais do que nunca, o voto de ahimsá se faz imprescindível, sobretudo por estarmos vivendo em tempos que carregam nas brumas de seus amanhecer, a gélida lâmina da intolerância. No entanto, é preciso que entendamos um pouco melhor o conceito, até mesmo para aperfeiçoarmos a sua utilização prática.

Conta a lenda de que um monge chamado Bôddhi Dharma tinha que levar as bases do Hinduísmo para a China. Queria ele fazer a travessia sem proteção militar, pois monge que o era, havia feito voto de ahimsá; porém, foi convencido que isso seria suicídio. Gerou-se em um conflito filosófico: tinha que cumprir o seu dharma (dever social), mas não queria ser assassinado. Sentou-se de frente para uma imagem de Shiva e permaneceu lá por semanas, sem sair do lugar, até que em dado momento a imagem se “desprende” e inicia uma dança, prontamente copiada pelo monge. Nas entrelinhas da dança, o monge estava aprendendo a se defender por meio de movimentos sutis, porém bastante eficientes. E então sentiu-se pronto para a peregrinação. Foi, e ao chegar ao seu destino, pessoas curiosas por ele ter conseguido a proeza da realização da caminhada sem armas, perguntaram à ele: como? E ele simplesmente, respondeu: de mãos vazias! O que mais tarde viria a designar o nome de uma difundida arte marcial, o karatê. Esta é uma das primeiras demonstrações de ahimsá que os carcomidos livros da história nos ensinam. Até o famoso Jiu-Jitsu (do qual sou praticante) nasceu de uma estória semelhante e também teve suas origens fundamentadas no conceito da não-violência. Por volta de 2500 a.C na Índia antiga, monges mercadores que precisavam constantemente atravessar as montanhas dos Himalayas eram freqüentemente assaltados pelos ladrões do deserto e como tinham dentro de seus princípios, a não utilização de armas, sentiram a necessidade de desenvolver técnicas de autodefesa e preservação, dando início assim a uma das mais eficazes e inteligentes artes que o mundo já conheceu. Interessante citar, a título de conhecimento e para reforçar o tema de nosso artigo de hoje, que o termo jiu-jitsu, significa arte suave. Elucidativo, não?

Dentro do nosso combatido vegetarianismo, o ahimsá reforça a opção pessoal, visto que a compaixão para com os animais é uma das grandes razões que levam milhares de pessoas diariamente a seguir essa trilha. A não-violência, neste caso, ganha um tom ainda mais dramático (pois refere-se, em grande parte dos casos, à assassinatos completa e imensamente desnecessários), levada por exemplo, ao extremo por grande parte dos seguidores do jainismo, tradição religiosa hindu iniciada por Mahavira por volta do séc. VI a.C. A história nos conta que quando Alexandre, o Grande, invadiu a Índia em torno de 326 a.C, os jainas recusaram a se dirigir à ele enquanto não se despisse de sua armadura, o que para eles, era uma afronta a não-violência. Até hoje é possível vê-los caminhando pelas ruas com máscaras cirúrgicas (para não matar nenhum inseto com a respiração) e varrendo constantemente o chão à sua frente para não correrem o risco de esmagar qualquer tipo de vida; rejeitam vegetais arrancados pela raiz, pois isso causaria a morte de centenas de microorganismos que fazem destes alimentos suas casas. Isso sim é preocupação com qualquer tipo de vida que envolva o planeta!

Não obstante, devemos compreender que o voto de ahimsá não deve ficar limitado à esfera alimentícia e sim ser observado em todas as dimensões que compõe o que chamamos de ser racional. Em minha opinião, ahimsá é, antes de mais nada, um intenso treinamento de tapas, termo sânscrito que significa literalmente calor, arder, mas que comumente é traduzido como auto-superação, pois designa em um certo sentido, um controle sobre nossos condicionamentos. Por exemplo, desde crianças aprendemos, muita mais pela observação (e essa é uma das mais eficazes técnicas de ensino) que é normal e natural, fofocar sobre a vida alheia, espargir maledicências sem necessidade, odiar o trabalho que nos dá sustento, reclamar o tempo todo de tudo e de todos, desejar que o outro esteja sempre um degrau abaixo de você, fazer mecanicamente o que não se gosta, e por final, aniquilar qualquer bichinho que cruze o nosso caminho (quem quando criança, nunca pisoteou uma formiga ou exterminou um tatu bola, simplesmente porque era o que todos faziam?). Enfim, todas as situações acima são graus diferentes da não observância de ahimsá. Portanto, para que o nosso voto seja realmente verdadeiro e transformador com relação aos animais, ele deve estar perpetrado amorficamente em nossos corações, sem qualquer restrição ou pré-conceitos, passando por pensamentos, palavras, ações e hábitos. Não pense que a tarefa é fácil, pois não é, e digo isso por experiência própria.

Permita-me escrever uma dica, algumas das que utilizo com meus alunos. Inicie a próxima semana com a idéia de aumentar a percepção com relação à violência presente em sua vida, seja ela qual for, física, mental, emocional, energética etc. Passe toda semana anotando as situações, que de uma forma ou de outra, lhe atrapalharam na disciplina do ahimsá. No final do período proposto, leia o que escreveu e escolha as que considera mais fáceis de se modificar, ou seja, aquelas nas quais provavelmente tenha agido por um impulso emocional, deixando outros atos de violência que já estão impregnados (hábitos) em você para serem resolvidos aos poucos, à medida que for sutilizando seu comportamento em pequenas ações (os pensamentos são mais difíceis e um dos conselhos é praticar meditação) do dia-a-dia.

Para terminarmos por esta edição: reflita sobre tudo aquilo que confronta os seus princípios e valores e saberá o que está lhe fazendo mal, ou de uma certa forma, quebrando o seu valioso pacto com nosso velho herói, o super ahimsá.

Fábio Euksuzian
Instrutor do Método DeRose

Pránáyáma

A palavra pránáyáma deriva de dois termos sâncritos: prána, que significa alento, força vital, respiração, energia, vitalidade e ayáma, expressão que, segundo o Amarakôsha, significa expansão, intensidade, propagação, dimensão. Pránáyáma, então, é o processo através do qual expande-se e intensifica-se o fluxo da energia.

Em outra acepção, esta palavra estaria formada pelos vocábulos prána, designando a a energia vital e yama, que significa controle, domínio, retenção, pausa. Pode traduzir-se também como domínio da bioenergia, utilizando técnicas respiratórias. Esse domínio não se faz no sentido de limitar a respiração, mas de expandi-la.

Pránáyáma é a expansão da bio-energia através de respiratórios. Uma vez que a respiração esteja perfeitamente regulada, poderemos facilmente controlar os processos conscientes, já que a respiração, mente e emoções interagem mutuamente. A respiração é o único acto vital inconsciente ao qual podemos ter acesso e controle imediato. Por meio dela temos condições de mergulhar nas profundezas do nosso inconsciente e torná-lo consciente. Dessa forma abrimos o livro interno e ganhamos condições de ler os registos mais íntimos. Como resultado deste autoconhecimento seguramos as rédeas da transformação e conduzimos nossa evolução.

Retirado do livro Respiração Total, da Professora Rosângela de Castro

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