Experimente ficar focado!

As pessoas já não estão só a cozinhar — estão a cozinhar, a mandar mensagens, a falar ao telefone, a acompanhar o YouTube e a carregar fotos da refeição incrível que acabaram de fazer. O designer Paolo Cardini questiona a eficiência do nosso mundo de multitarefas e defende — pasme-se — as “monotarefas”.

Quando chegamos à última parte da prática de Yôga tentamos ficar focados numa coisa só (o nosso objecto de meditação), e sabemos que quando conseguimos fazer isso entramos no estado de concentração.E Que tal levarmos essa técnica tão preciosa para o nosso dia-a-dia? Nós, yôgins, sabemos que as multitarefas conduzem à dispersão e à baixa produtividade, enquanto que as “monotarefas” nos levam à concentração e ao alto rendimento no trabalho!

O rito do eterno retorno

A meditação nos ensina que para expandirmos a consciência devemos manter nossa atenção focada, o maior tempo possível, num único ponto, seja ele uma imagem ou um som. Nossa mente, dispersa por natureza, e por isso mesmo ávida por novidades, fará de tudo para fugir desta estabilidade que para ela não parece nada agradável. O meditante deve estar muito convicto do que quer, para que quando as dispersões tentarem tirá-lo do foco inicial possa percebê-las rapidamente e retornar a fazer o que se propôs no início do exercício. Lembranças, falsas prioridades, preocupações e compromissos aparentemente inadiáveis, invadirão sua consciência com o objetivo de desviá-lo da busca de um bem-estar maior. Estando o tempo todo atento a esses truques da mente, ele não embarcará nas distrações e permanecerá mais tempo fazendo somente o que se determinou. O início de uma meditação é como um jogo de pega-pega no qual, a mente dispersa e foge e você quando percebe a traz de volta sem se deixar envolver com os pensamentos alheios. Vencida a primeira etapa, embarcamos numa experiência gratificante e enriquecedora.

Pois essa fuga da profundidade também acontece no nosso dia-a-dia. Seja na leitura de um livro que nunca conseguimos terminar, enquanto eu escrevo e reescrevo este texto, ou num bate-papo que ao começar a ganhar profundidade alguém se atravessa e pergunta “O que vamos fazer hoje à noite?” Conta-se que quando Sartre e sua turma de filósofos existencialistas invadiam o Café D`Flore para conversar, eles dividiam-se em duplas para que conseguissem realizar conversas à deux mais significativas. Pois estas escapadas do foco principal acontecem muitas vezes quando estamos construindo um empreendimento que demande ações repetidas por um longo período de tempo. Não agrada à nossa mente ir muito fundo nas questões, ela prefere a superficialidade por onde pode transitar com mais rapidez e manter atualizado o seu insaciável desejo de diversificação.

Quase sempre quando traçamos um plano, sabemos exatamente o que devemos fazer para chegar onde queremos. Não obstante, basta aparecer a primeira oportunidade… e escapamos do trilho, cedendo à tentação da dispersão. É o eterno dilema do regime que começa somente na segunda-feira e que se rompe imediatamente no convite para jantar fora. Questão muito bem explicada pelo ensinamento que diz que o bom hábito é bastante árduo de se adquirir, mas simples de deixar. Já o vício se caracteriza por ser fácil de começar e difícil de parar. Quanto mais conscientes estivermos destas fugas e mais gana tivermos para realizar nossos objetivos, mais rapidamente conseguiremos retornar a fazer o que nos propusemos e mais tempo conseguiremos manter a execução das ações imprescindíveis.

 

Por isso, o maior obstáculo para realizarmos o que desejamos não está no mercado, nem nas pessoas que fazem parte da nossa equipe ou ainda na estratégia que montamos. Mesmo que se tenha todos esses fatores funcionando perfeitamente, não chegaremos a lugar algum se não tivermos tenacidade na manutenção das ações. Não somente para realizar um objetivo importante, mas também para se alimentar bem, praticar esportes, estudar, enfim, para manter disciplina em qualquer ação, teremos que estar alertas o tempo todo para quando dispersarmos, retornarmos ao que sabemos que é importante o mais rapidamente possível. É o rito do eterno retorno com o qual entende-se que realizar é muito mais voltar a fazer o que se propôs do que inventar coisas novas.

Num segundo momento da meditação compreendemos que a consciência deve permanecer bastante tempo envolvida em algo que seja externo a nós para depois se libertar. Nosso ego, através dos pensamentos, tentará trazê-la de volta para a prisão da individualidade, restringindo-a. No entanto, ela não pertence ao ego, mas é parte do todo. E entendemos isto quando não permanecermos apenas com nossos pensamentos e percepções personalizadas. Tal como ocorre na meditação, é preciso que a consciência se prenda em algo fora de nós mesmos para depois termos uma percepção mais abrangente de realidade.

Assim como a consciência pode ser confundida com o ego, muito embora não o seja, e precisa se expandir para libertar-se, uma idéia que fique somente com você, será restrita e não produzirá riqueza interna ou externa. As idéias podem parecer nossas, e algumas pessoas se apegam a elas como se fossem apenas suas mesmo, não compartilhando-as com ninguém. No entanto, elas pertencem ao inconsciente coletivo e se você captou uma que gosta, deve concretizá-la. Somente quando fazemos “nossas” idéias permanecerem fora de nós e serem concretizadas em um produto ou projeto é que conseguimos expandir nossa atuação e tomar o mundo.

Texto do Instrutor Daniel De Nardi

http://www.assimfaloudenardi.com