A respiração alternada e as suas propridades

O RESPIRATÓRIO ALTERNADO E SUAS PROPRIEDADES

Não é por acaso que este é considerado um dos principais respiratórios do repertório yôgi. Entendamos como a respiração alternada contribui para que o praticante melhore dois dos mais importantes processos para alcançar a meta do Yôga:

1) Estabilização da consciência;

2) Ampliação da energia sexual.

Para evoluir no samyama, técnica que engloba dháraná, dhyána e samádhi, é necessário que o sádhaka aprenda a aquietar seus pensamentos, focando-se em um único ponto. O nadí shôdhana contribui para isto, pois ao fazer inspirações e expirações lentas, conforme a descrição do exercício sugere, o praticante começará a estabilizar suas emoções e posteriormente reduzirá suas dispersões mentais. O meu monitor Charles Maciel, sempre brinca com o gesto característico do nadí shôdhana, quando alguém fica nervoso ou está agitado demais. Se além da respiração lenta associarmos um ritmo, potencializaremos a concentração. O ser humano é arrítmico por natureza e por isso, tem tanta dificuldade de permanecer focado em qualquer coisa que faça por muito tempo. Respiramos de maneira instável, nos movimentamos o tempo todo e se não somos treinados, não conseguimos nem mesmo batucar o ritmo de uma música simples até o final dela. Quando passamos a manter um tempo pré-determinado em cada fase da respiração, rompemos com essa tendência dispersiva e passamos a cadenciar nosso tempo biológico, o que contribui e muito para a estabilidade mental.

Com relação à ampliação da energia sexual, vale a pena ressaltar que o primeiro granthi, brahmá granthi, válvula de proteção que mantém a energia da kundaliní retida no múládhára chakra é relacionado ao corpo físico, tanto o denso como o energético. Somente quando este corpo encontra-se em perfeito funcionamento é que a válvula abre permitindo que a kundaliní dê seus primeiros passos pelo canal central, sushumná nadí, desenvolvendo os chakras e as potencialidades humanas. Mas para que isso aconteça, é necessário que os meridianos por onde toda a energia biológica irá percorrer dentro de nós estejam totalmente limpos. O próprio nome do respiratório, nadí shôdhana, já indica uma atuação neste sentido, uma vez que shôdhana se traduz por purificação. Também contribui para a ampliação da energia sexual a mentalização que normalmente é feita neste pránáyáma, na qual direcionamos o prána captado através de ida e pingalá – dois dos principais meridianos de energia do nosso corpo – até à base da coluna. Ao conduzirmos o prána para lá, estamos levando o alimento da kundaliní, aumentando a pressão na caldeira de energia que se situa nessa região, favorecendo a ascensão da energia ígnea pelo canal central, sushumná, até o sahásrara chakra, eclodindo numa experiência meditativa.

O nadí shôdhana sozinho não é capaz de conduzir o praticante à meta do Yôga, mas executado dentro da prática ortodoxa do SwáSthya Yôga desenvolverá os dois processos essenciais que citamos no início do texto: a supressão da instabilidade da consciência e a ampliação da energia sexual. A estabilidade será imprescindível para que se atinja o estado de dhyána, mas este só evoluirá até o samádhi se a kundaliní estiver bem desenvolvida.

Estes dois trabalhos simultâneos já seriam suficientes para nos dedicarmos com muito afinco a este respiratório, mas ele vai além disso. Ao alternarmos as narinas, sempre com os pulmões cheios e jamais com os pulmões vazios, conforme nos ensina o Mestre DeRose no CD da Prática Básica, estamos desenvolvendo as duas polaridades que possuímos; a masculina e a feminina, o emocional e o mental, a sensibilidade e a agressividade, fazendo com que depois de anos de prática, ampliemos nossa consciência para além do mundo do julgamento, do certo e errado, do claro e escuro. Somente quando sairmos da parcialidade poderemos vivenciar nosso verdadeiro Eu, uma vez que o púrusha não julga, ele simplesmente É.

Texto do Instrutor Daniel De Nardi, Método DeRose Itaim

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O rito do eterno retorno

A meditação nos ensina que para expandirmos a consciência devemos manter nossa atenção focada, o maior tempo possível, num único ponto, seja ele uma imagem ou um som. Nossa mente, dispersa por natureza, e por isso mesmo ávida por novidades, fará de tudo para fugir desta estabilidade que para ela não parece nada agradável. O meditante deve estar muito convicto do que quer, para que quando as dispersões tentarem tirá-lo do foco inicial possa percebê-las rapidamente e retornar a fazer o que se propôs no início do exercício. Lembranças, falsas prioridades, preocupações e compromissos aparentemente inadiáveis, invadirão sua consciência com o objetivo de desviá-lo da busca de um bem-estar maior. Estando o tempo todo atento a esses truques da mente, ele não embarcará nas distrações e permanecerá mais tempo fazendo somente o que se determinou. O início de uma meditação é como um jogo de pega-pega no qual, a mente dispersa e foge e você quando percebe a traz de volta sem se deixar envolver com os pensamentos alheios. Vencida a primeira etapa, embarcamos numa experiência gratificante e enriquecedora.

Pois essa fuga da profundidade também acontece no nosso dia-a-dia. Seja na leitura de um livro que nunca conseguimos terminar, enquanto eu escrevo e reescrevo este texto, ou num bate-papo que ao começar a ganhar profundidade alguém se atravessa e pergunta “O que vamos fazer hoje à noite?” Conta-se que quando Sartre e sua turma de filósofos existencialistas invadiam o Café D`Flore para conversar, eles dividiam-se em duplas para que conseguissem realizar conversas à deux mais significativas. Pois estas escapadas do foco principal acontecem muitas vezes quando estamos construindo um empreendimento que demande ações repetidas por um longo período de tempo. Não agrada à nossa mente ir muito fundo nas questões, ela prefere a superficialidade por onde pode transitar com mais rapidez e manter atualizado o seu insaciável desejo de diversificação.

Quase sempre quando traçamos um plano, sabemos exatamente o que devemos fazer para chegar onde queremos. Não obstante, basta aparecer a primeira oportunidade… e escapamos do trilho, cedendo à tentação da dispersão. É o eterno dilema do regime que começa somente na segunda-feira e que se rompe imediatamente no convite para jantar fora. Questão muito bem explicada pelo ensinamento que diz que o bom hábito é bastante árduo de se adquirir, mas simples de deixar. Já o vício se caracteriza por ser fácil de começar e difícil de parar. Quanto mais conscientes estivermos destas fugas e mais gana tivermos para realizar nossos objetivos, mais rapidamente conseguiremos retornar a fazer o que nos propusemos e mais tempo conseguiremos manter a execução das ações imprescindíveis.

 

Por isso, o maior obstáculo para realizarmos o que desejamos não está no mercado, nem nas pessoas que fazem parte da nossa equipe ou ainda na estratégia que montamos. Mesmo que se tenha todos esses fatores funcionando perfeitamente, não chegaremos a lugar algum se não tivermos tenacidade na manutenção das ações. Não somente para realizar um objetivo importante, mas também para se alimentar bem, praticar esportes, estudar, enfim, para manter disciplina em qualquer ação, teremos que estar alertas o tempo todo para quando dispersarmos, retornarmos ao que sabemos que é importante o mais rapidamente possível. É o rito do eterno retorno com o qual entende-se que realizar é muito mais voltar a fazer o que se propôs do que inventar coisas novas.

Num segundo momento da meditação compreendemos que a consciência deve permanecer bastante tempo envolvida em algo que seja externo a nós para depois se libertar. Nosso ego, através dos pensamentos, tentará trazê-la de volta para a prisão da individualidade, restringindo-a. No entanto, ela não pertence ao ego, mas é parte do todo. E entendemos isto quando não permanecermos apenas com nossos pensamentos e percepções personalizadas. Tal como ocorre na meditação, é preciso que a consciência se prenda em algo fora de nós mesmos para depois termos uma percepção mais abrangente de realidade.

Assim como a consciência pode ser confundida com o ego, muito embora não o seja, e precisa se expandir para libertar-se, uma idéia que fique somente com você, será restrita e não produzirá riqueza interna ou externa. As idéias podem parecer nossas, e algumas pessoas se apegam a elas como se fossem apenas suas mesmo, não compartilhando-as com ninguém. No entanto, elas pertencem ao inconsciente coletivo e se você captou uma que gosta, deve concretizá-la. Somente quando fazemos “nossas” idéias permanecerem fora de nós e serem concretizadas em um produto ou projeto é que conseguimos expandir nossa atuação e tomar o mundo.

Texto do Instrutor Daniel De Nardi

http://www.assimfaloudenardi.com