Aparigraha – não possessividade

Agarrar-se às coisas e ser livre são dois estados mutuamente exclusivos. A mente comum está constantemente a manipular a realidade para obter segurança, a construção de imagens concretas de como as coisas são e como os outros são, são uma forma de gerar confiança e segurança. Construímos auto-imagens e construímos conceitos e paradigmas que alimentam o nosso senso de certeza, e, em seguida, defendemos esse edifício, submetendo-nos a situações que reforçam as nossas certezas. Isto seria bom se a vida fosse de fato um evento homogéneo em que nada muda; mas a vida muda, e isso exige que nos adaptemos e mudemos com ela. A resistência à mudança, e a persistência em nos agarrarmos a coisas e pessoas, causa grande sofrimento e impede-nos de crescer e viver a vida de uma forma mais agradável. A filosofia do Yoga e todos os grandes ensinamentos budistas dizem-nos que a solidez é uma criação da mente e que nunca houve nada permanente nas nossas vidas. A vida seria muito mais fácil e substancialmente menos dolorosa se vivêssemos com o conhecimento da impermanência como a única constante. Como todos temos descoberto em algum momento das nossas vidas, sempre que tentamos segurar algo com muita força, seja possessividade sobre o nosso parceiro ou a nossa identidade jovem, isso só nos levou à destruição dessas mesmas coisas.

A prática de aparigraha também exige que olhemos para a forma como usamos as coisas para reforçar nosso senso de identidade. O ego adora acreditar no seu próprio poder, mas, infelizmente, requer um séquito de soldados que são objectos externos, tais como roupas, carro, casa, trabalho, para manter essa ilusão. E porque este ego é apenas uma ilusão criada pelo nosso sentido de separação, requer estratégias cada vez maiores e mais elaboradas para se manter vivo. Embora a prática de não se  apegar se  foque inicialmente nos bens materiais, logo depois surge uma necessidade de ir além disso e de perceber que  o que é verdadeiramente importante para nós, nós já possuímos.

Brahmáchárya

De todos os preceitos, brahmáchárya é o menos compreendido e o mais temido pelos ocidentais. Muitas vezes traduzido como celibato, este preceito causa estragos nas mentes e vidas daqueles que interpretam brahmáchárya como um ato necessário de supressão sexual ou sublimação. Todas as tradições espirituais e religiões têm lutado com o dilema de como usar a energia sexual com sabedoria. Praticar brahmáchárya significa que usamos a nossa energia sexual para regenerar a nossa conexão com nosso ser espiritual. Isso também significa que nós não vamos usar essa energia de uma forma que possa prejudicar o outro. Não é preciso ser um génio para reconhecer que manipulando e usando outros sexualmente se cria uma série de maus sentimentos, como a dor, o ciúme, o apego, ressentimento e ódio. Este é um domínio da experiência humana que pode despertar o melhor e o pior nas pessoas, por isso, os antigos yogins faziam um grande esforço para observar e estudar esta forma particular de energia. Pode ser mais fácil de entender brahmáchárya se removermos a designação sexual e olharmos para ela apenas como uma energia. Brahmáchárya significa fundir a energia da pessoa com o todo. Enquanto a comunhão que podemos experimentar através de fazer amor com outro nos dá uma das mais claras experiências desse entrosamento de energias, esta experiência é para ser estendida como uma espécie de celebração omnidimensional de Eros em todos suas formas. Se nós conseguimos isso através do sentir a respiração que acaricia os nossos pulmões, através do orgasmo, ou através do celibato não é importante.

A queda da graça de inúmeros gurus que, embora advertindo os seus devotos para praticar o celibato, foram brutalmente abusados pelo seu próprio poder sexual é motivo para considerar mais profundamente a adequação de tal interpretação. Quando qualquer energia é sublimada ou suprimida, ela tem a tendência a sair pela culatra, expressando-se de forma negadores da vida. Isso não quer dizer que o celibato em si é uma prática doentia. Quando abraçada com alegria a contenção da energia sexual pode ser extremamente auto-nutritiva e revitalizante e, no mínimo, pode proporcionar uma oportunidade para aprender a usar essa energia com sabedoria. Quando o celibato é praticado desta forma, não faz sentido parar  de o fazer. Em última análise, não é uma questão de se usamos a nossa energia sexual, mas de como a usamos.

Ao olhar para o seu próprio relacionamento com a energia sexual, examine se as formas de expressar essa energia o trazem para mais perto ou mais longe do seu eu espiritual.

Tradução livre de um texto da Professora Donna Farhi

Satya – compromisso com a verdade

Este preceito é baseado no entendimento de que  a comunicação e acção honestas formam a base de qualquer relacionamento, comunidade ou governo, e que o engano deliberado, o exagero e a inverdade prejudicam os outros. Uma das melhores maneiras de desenvolver essa capacidade é praticar a linguagem correta. Isto significa que, quando dizemos alguma coisa, temos a certeza da sua verdade. Se fôssemos seguir esse preceito com compromisso, muitos de nós teriam muito menos a dizer a cada dia! Uma grande parte das nossas observações quotidianas e conversas não são com base no que sabemos ser verdade, mas são baseadas na nossa imaginação, suposições, conclusões erróneas, e às vezes exageradas. A fofoca é, provavelmente, a pior forma desta falha de comunicação.

O compromisso com a verdade nem sempre é fácil, mas com a prática, é muito menos complicado e, finalmente, menos doloroso do que a evasão e o auto-engano.

A comunicação adequada  permite-nos lidar com as preocupações imediatas cuidando das pequenas questões antes que se tornem grandes.

Provavelmente, a forma mais difícil desta prática está em ser fiel ao nosso próprio coração e destino interior. A confusão e desconfiança dos nossos valores internos pode tornar difícil saber a natureza do desejo do nosso coração, mas mesmo quando nos tornamos claros o suficiente para reconhecer o que significa a verdade para nós, podemos não ter a coragem e convicção suficientes para viver a nossa verdade. Seguir o que sabemos ser essencial para o nosso crescimento pode significar deixar relacionamentos ou postos de trabalho doentios e correr riscos que ponham em causa a nossa própria posição confortável. Isso pode significar fazer escolhas que não são suportadas pela realidade consensual ou ratificadas pela cultura externa. A verdade raramente é conveniente. Uma maneira de saber se estamos a viver a verdade é percebermos que as apesar das nossas escolhas poderem não ser fáceis,  no final do dia sentimos paz em nós mesmos!

Tradução livre de um texto da Professora Donna Farhi

Ahimsá Peace in oneselfPeace in the world (1)

Ahimsá

Ahimsá é geralmente traduzido como não-violência, mas esse preceito vai muito para além do sentido penal limitado de não matar os outros. Em primeiro lugar, temos de aprender a ser não-violentos para connosco. Se formos capazes de reproduzir as observações e julgamentos muitas vezes rudes, inúteis e destrutivos que fazemos silenciosamente  a nós mesmos num determinado dia, isso pode nos dar uma ideia da enormidade do desafio de auto-aceitação. Se estivéssemos a verbalizar esses pensamentos em voz alta para outra pessoa, iríamos perceber como muitas vezes somos verdadeiramente violentos e  devastadores connosco. Na verdade, poucos de nós se atreveriam a ser tão cruéis com os outros como somos para nós mesmos. Isso pode ser tão subtil quanto a crítica do nosso corpo quando olhamos no espelho de manhã, ou quando nós denegrimos os nossos melhores esforços. Qualquer pensamento, palavra ou acção que nos (ou a outra pessoa) impede de crescer e viver livremente é aquele que é prejudicial.

Estender essa compaixão para com todos os seres vivos depende do nosso reconhecimento da unidade subjacente de todos os seres sencientes. Quando começamos a reconhecer que os córregos e rios da terra não são diferentes do sangue que corre através das nossas artérias, torna-se difícil ficar indiferente ao sofrimento do mundo. Naturalmente damos por nós a querer proteger todas as coisas vivas. Torna-se difícil para nós atirar uma lata num rio ou esculpir os nossos nomes na casca de uma árvore, pois cada acto seria um acto de violência em relação a nós mesmos. Cultivar uma atitude e modo de comportamento não violento não significa que não iremos sentir emoções como raiva, ciúme ou ódio. Aprender a ver tudo através dos olhos da compaixão exige que olhemos para  esses aspectos do nosso eu com aceitação. Paradoxalmente, quando acolhemos os nossos sentimentos de raiva, ciúme ou ódio, em vez de vê-los como sinais do nosso fracasso espiritual, podemos começar a entender as causas destes sentimentos e ir além deles. Ao chegar perto o suficiente  das nossas próprias tendências violentas, podemos começar a entender as suas causas e aprender a conter estas energias para o nosso próprio bem-estar e para a protecção dos outros. Debaixo desses sentimentos descobrimos um desejo muito mais forte que todos nós compartilhamos – ser amados. É impossível chegar a esse entendimento mais profundo se ignorarmos o trabalho duro de enfrentar os nossos demónios interiores.

Ao considerar ahimsá é útil perguntar – irão os meus pensamentos, acções e obras fomentar o crescimento e bem-estar de todos os seres?

Tradução livre de um texto da Professora Donna Farhi

Ahimsá Peace in oneselfPeace in the world

Tapas e o poder interno

Tapas é uma das prescrições do código de ética do yôgin. É um termo em Sânscrito, que deriva da raiz tap, que significa calor ou ardor. Designa a auto-superação, num esforço constante do indivíduo para se melhorar em todos os aspectos e circunstâncias. Ao invés de se poder associar a algum tipo de disciplina fundamentalista, é muito mais o hábito de abraçar desafios escolhidos por si mesmo, pondo-se à prova e levando mais longe as suas potencialidades. Além de ser estimulante, é de natureza extremamente criativa.

A metodologia do Yôga, no caminho para a expansão da consciência, pretende aproximar as capacidades humanas do nível da excelência. Muitos são os obstáculos, sobretudo sob a forma de condicionamentos culturais e individuais mais ou menos enraizados, que nos prendem a padrões de comportamento ou de concepção que provavelmente nunca questionámos. Será que os queremos? Será que temos a força suficiente para os mudar se não os quisermos? São questões directamente relacionadas com a liberdade de escolha e a força para vencer obstáculos. Sobre esta última há ainda que medir o que é mais forte, eu ou o obstáculo?

Durante a prática das técnicas de Yôga, observamos que podemos ir cada vez mais além, tal só depende da regularidade da prática e do esforço e aplicação da vontade na sua execução. Ora como nenhuma das técnicas é meramente física, essa aplicação da vontade é também exercida sobre as emoções e a mente, reeducando-as em contínuo. Esse é já um desfio tremendo, mas sendo o Yôga uma filosofia de vida, o desafio maior é fazer exactamente o mesmo exercício na vida diária, fora da sala de prática. Trata-se de aceitar e compreender as suas fraquezas para crescer através delas, manter a mente aberta para escolher o que quer para si, estabelecer os seus próprios limites com base na sua ética e autoconhecimento e até ser capaz de dizer não quando todos os outros dizem que sim, sem recear a opinião alheia.

O conceito de tapas não envolve que o indivíduo se force a coisa alguma, mas antes que adquira a força para se levar até onde quiser.  Requer conhecimento, desenvolve a consciência da liberdade individual e confere segurança interna e um poder cada vez maior sobre si mesmo. É em boa medida o calor ou fogo que tempera o aço da vontade.

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Texto daqui: Ady Estoril

Satya – A verdade

“Quando se observa a honestidade, toda a riqueza é atraída”.
Patañjali

A verdade está diretamente ligada a um princípio fundamental para o desenvolvimento de nações, empresas ou pessoas: cumprir contratos. Toda vez que fazemos o que nos determinamos, passamos a acreditar mais no nosso potencial (autoconfiança), as pessoas nos dão mais credibilidade e, caso estejamos falando de uma empresa, o reconhecimento do mercado virá na forma de uma confiança prestigiosa, um dos mais importantes fatores na construção de uma marca valiosa. Pátañjali, sobre o hábito da verdade, comentou: “Quando se observa a honestidade, toda a riqueza é atraída”.

Quando vivenciamos satya em sua plenitude, muito poder é produzido. A mente passa a acreditar em tudo aquilo que você pensa, fala ou deseja. As realizações se tornam mais rápidas, pois o pensamento está mais intimo da ação, e a autoconfiança presente em qualquer atitude tomada. Este uso pleno da verdade tem que abranger desde coisas muito simples, como cumprir o que combinou com seus amigos, até o cumprimento de contratos milionários.

Toda vez que nos determinamos a fazer algo e aquilo não é cumprido, enfraquecemos nosso poder interno, perdemos autoconfiança, e a mente passa a acreditar cada vez menos em promessas simples como a do regime que começará amanhã. Caso você tenha o costume de combinar algo com os outros e não cumprir, as pessoas passarão a não lhe dar mais crédito, dificultar parcerias e conseqüentemente qualquer tipo de realização. O mundo lhe verá como uma pessoa sem integridade e as portas das oportunidades se fecharão totalmente.
 
Portanto, desenvolva o costume de falar sempre a verdade, seja para você mesmo ou para os outros e cumprir tudo aquilo o que se determina a fazer. Ao colocar intenção, cumpra, pois isto é questão de caráter. Desta forma você estará aproximando cada vez mais qualquer desejo da sua materialização. Com o tempo, será fácil realizar o que quiser; bastará pensar ou falar e você já estará bem próximo da concretização.
 
Para cumprir satya em sua totalidade, a pessoa deve mostrar perfeita coerência entre suas ações, palavras e pensamentos. Um grande exemplo de coerência foi Mahatma Gandhi. Quando este grande luminar foi convidado a falar no Parlamento Inglês, se estendeu por duas horas, sem usar anotações. Apesar de não falar aquilo que os parlamentares desejavam ouvir, foi aplaudido de pé por todos. Depois do discurso, os repórteres procuraram seu secretário, para saber como Gandhi havia conseguido tal façanha, ao que ele serenamente lhes esclareceu: “Aquilo que Gandhi pensa, sente, diz e fala é tudo a mesma coisa. Ele não precisa de anotações… Você e eu, nós pensamos uma coisa, sentimos outra, dizemos outra , e fazemos uma quarta, então precisamos de anotações e arquivos para acompanhar todas as mudanças.”

Extraído do Blog Assim Falou De Nardi
coracaoyogin