Ahimsá

Ahimsá é geralmente traduzido como não-violência, mas esse preceito vai muito para além do sentido penal limitado de não matar os outros. Em primeiro lugar, temos de aprender a ser não-violentos para connosco. Se formos capazes de reproduzir as observações e julgamentos muitas vezes rudes, inúteis e destrutivos que fazemos silenciosamente  a nós mesmos num determinado dia, isso pode nos dar uma ideia da enormidade do desafio de auto-aceitação. Se estivéssemos a verbalizar esses pensamentos em voz alta para outra pessoa, iríamos perceber como muitas vezes somos verdadeiramente violentos e  devastadores connosco. Na verdade, poucos de nós se atreveriam a ser tão cruéis com os outros como somos para nós mesmos. Isso pode ser tão subtil quanto a crítica do nosso corpo quando olhamos no espelho de manhã, ou quando nós denegrimos os nossos melhores esforços. Qualquer pensamento, palavra ou acção que nos (ou a outra pessoa) impede de crescer e viver livremente é aquele que é prejudicial.

Estender essa compaixão para com todos os seres vivos depende do nosso reconhecimento da unidade subjacente de todos os seres sencientes. Quando começamos a reconhecer que os córregos e rios da terra não são diferentes do sangue que corre através das nossas artérias, torna-se difícil ficar indiferente ao sofrimento do mundo. Naturalmente damos por nós a querer proteger todas as coisas vivas. Torna-se difícil para nós atirar uma lata num rio ou esculpir os nossos nomes na casca de uma árvore, pois cada acto seria um acto de violência em relação a nós mesmos. Cultivar uma atitude e modo de comportamento não violento não significa que não iremos sentir emoções como raiva, ciúme ou ódio. Aprender a ver tudo através dos olhos da compaixão exige que olhemos para  esses aspectos do nosso eu com aceitação. Paradoxalmente, quando acolhemos os nossos sentimentos de raiva, ciúme ou ódio, em vez de vê-los como sinais do nosso fracasso espiritual, podemos começar a entender as causas destes sentimentos e ir além deles. Ao chegar perto o suficiente  das nossas próprias tendências violentas, podemos começar a entender as suas causas e aprender a conter estas energias para o nosso próprio bem-estar e para a protecção dos outros. Debaixo desses sentimentos descobrimos um desejo muito mais forte que todos nós compartilhamos – ser amados. É impossível chegar a esse entendimento mais profundo se ignorarmos o trabalho duro de enfrentar os nossos demónios interiores.

Ao considerar ahimsá é útil perguntar – irão os meus pensamentos, acções e obras fomentar o crescimento e bem-estar de todos os seres?

Tradução livre de um texto da Professora Donna Farhi

Ahimsá Peace in oneselfPeace in the world

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O ciclo existencial

O hinduísmo apresenta-nos um conceito chamado dúhkha traya, que significa, o triplo infortúnio existencial. Isso diz respeito à conscientização de que estamos todos presos no ciclo existencial, o samsára, cujo movimento não tem fim. Vejamos como o Sámkhya analisa essa “miséria existencial”, que possui três raízes ou causas principais.

A primeira raiz se encontra na relação do ser humano com seus semelhantes. Cada um sofre, em maior ou menor grau, de algum tipo de carência, seja física, emocional ou mental. Também cada um precisa competir por melhores posições na sociedade e, por isso, tem de se condicionar aos costumes e regras estabelecidos pelo dharma (lei humana ou social), na maioria das vezes, não pertinente com o âmago da natureza.

A segunda causa se acha na relação do indivíduo com outros seres da natureza, tais como os animais selvagens e os microorganismos desconhecidos que lhe trazem enfermidades e morte prematura. Muitas vezes é a nossa própria sociedade que se permite desenvolver novas bactérias e vírus, dando origem a doenças cada vez mais sofisticadas.

Já a terceira raiz é a relação do homem com as forças da natureza (o homem está sempre infeliz, ora queixando-se do calor, ora do frio, ora da chuva, etc). Ainda pode acontecer uma seca intensa, uma enchente, um terremoto, um furacão, enfim, os grandes cataclismas do planeta.

Evidentemente, existem meios específicos para contornar todas as situações; principalmente, em função do rápido avanço tecnológico e científico que traz mais conforto e uma maior expectativa de vida. Entretanto, os problemas continuarão a surgir, soluções aparecerão e novas questões virão (antes, a peste; depois, o câncer; aids e, amanhã, o que mais será?).

Por outro lado, temos ainda as propostas das religiões ou também de um estado político-social organizado. Conceitos e paradigmas nos vão sendo impostos por uma cultura que, na maioria das vezes, castra nossas maiores possibilidades. Quando observada de um outro ângulo, a esperança proporcionada pelo acreditar, seja na justiça divina, seja na ordem social, apenas nos permite orbitar na periferia.

A maioria desses caminhos são considerados simplórios e não passam de um remédio paliativo de breve validade. É como se apenas podássemos os galhos de uma árvore. Ela continuará de pé, sustentada pelas suas raízes, de onde partirão novos ramos e flores, cujos frutos um dia retornarão à terra, cujas sementes produzirão novas árvores… E é a terra que fornece o alimento mas também o que aprisiona o homem ao eterno movimento cíclico da Natureza. Dentro de uma esfera que não pára de girar, somos arrastados ora para cima, ora para baixo, num jogo interminável.

A paz e a tranqüilidade nada mais são do que a lacuna entre os conflitos e o sofrimento. A segurança e a riqueza andam numa corda-bamba; e num instante se está feliz, noutro, infeliz. Seja quem for, faça o que fizer, tenha o que tiver, todos os homens estarão insatisfeitos. Todos trazem em si uma espécie de inquietação e de agitação internas causadas pelo ciclo perpétuo da Natureza.

A intensidade dessas sensações é proporcional ao plano de existência em que esteja cada indivíduo. Às criaturas chamadas inferiores, nada disso tem razão de ser, por exemplo, uma planta, um inseto ou um cão, que amoldam-se ao seu meio natural. Mas quer sejam seres racionais, quer sejam irracionais, o fato é que todos estamos juntos nas cadeias do nascimento e da morte, aprisionados pelo ciclo existencial, por sua vez caracterizado pela lei de causa e efeito, o karma.

Pátañjali escreve no Yôga Sútra (cap. II: vers. 12-15): “O karma tem suas raízes nos obstáculos e é experimentado tanto no nascimento objetivo quanto subjetivo. Permanecendo a existência das raízes, permanecem as conseqüências (kármicas) que vão determinar tudo: o nascimento, a própria vida e as suas experiências. Estas produzem alegria ou dor, conforme sua causa seja virtude ou vício. Para o discriminativo, tudo provoca a dor, seja devido à antecipação do sentimento de perda, ou a novos desejos produzidos pelos samskáras, ou ainda, a conflitos entre os gunas.”

Imaginemos um homem como um grão de areia se comparado à Terra, a qual nada mais é do que um ponto no sistema solar. Esse, por sua vez, é ínfimo dentro da via-láctea, que também não passa de um minúsculo ponto em relação ao aglomerado de galáxias; assim, ad infinitum. Para cada um desses elementos é atribuído um período de vida, desde uma célula até uma estrela.

Os darshanas, as escolas de filosofia hindu, procuram uma saída na qual o ser humano possa libertar-se do movimento incessante da roda existencial, cujas percepções, vivências e transformações encontram-se limitadas espacialmente e condicionadas à temporalidade.

Gaudapáda comentando o Sámkhya Kariká (vers.II), diz: “Numerosos milhares de Indras (uma das primeiras divindades arianas), de era para era, com o tempo desaparecem, pois o tempo é invencível”. Seja através de uma árvore centenária, de um inseto que vive alguns meses ou de uma galáxia de bilhões de anos, nossas percepções habituais estão lacradas pelas dimensões de tempo e espaço.

Em relação ao homem, a forma como ele se apresenta, com sua personalidade distinta, com seus desejos particulares ou coletivos, com suas tendências genéticas, instintivas, emocionais e mentais, tudo isso está incluso nessa mesma esfera sem saída, dentro da qual tudo nasce, se desenvolve, se desfaz e se transforma.

Para que compreendamos nosso ciclo existencial e, consequentemente, encontremos uma saída para esse drama cósmico, devemos começar a nos desapegar (ou nos desprender) de máyá. Máyá, que significa ilusão, é onde atuam os pares de opostos, tais como: bem e mal, belo e feio, dia e noite, certo e errado, homem e mulher, alegria e tristeza, prazer e dor, vida e morte, etc.

Observada sob o nosso parâmetro humano, toda dualidade é uma realidade. Porém, quando a dualidade é vista sob uma grande angular, tudo aquilo que aos nossos sentidos humanos aparece como pólos distantes, na verdade, são pontos de um mesmo extremo!

Na Bíblia (Gênesis, ii: 8-17) está escrito: “E o Senhor Deus tinha produzido da terra todo tipo de árvores formosas e de frutos doces para comer; e havia também a árvore da vida no meio do paraíso, e a árvore da ciência do bem e do mal… E, deu-lhe este preceito, dizendo: ‘coma os frutos de todas as árvores do Paraíso, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal’.” (Aqui não há nenhuma menção à maçã criada pelo folclore. Na verdade, tal árvore representa o conhecimento do bem e do mal, ou seja, a dualidade, o grande pecado do homem). No Dhammapáda, escritura clássica do budismo, é atribuída ao Buda a seguinte frase: “Aquele que venceu as cadeias do mal, mas também venceu as cadeias do bem, lhe chamo eu, Brahmane.” Assim, essas duas obras, de tradições diferentes, dizem respeito à transcendência dos opostos, na qual o indivíduo deve ser, simplesmente, como a Natureza o criou.

samsara

Em suma, existem três maneiras para enfrentar o ciclo existencial: resignar-se conscientemente, caminhar em direção à saída, ou ainda, conciliar essas duas opções. A partir do momento em que compreendemos as leis e os mecanismos que regulam o funcionamento do nosso Universo teremos mais acesso à libertação e rumaremos finalmente ao paraíso, dimensão do aqui e do agora, além das fronteiras do tempo e do espaço.

Trecho do livro Yôga, Sámkhya e Tantra, do Mestre Sérgio Santos

Shiva, criador do Yôga

Shiva Pashupáti

Pashupáti é a forma primitiva de Shiva, levando a nossa imaginação ao período dravídico, anterior ao hinduísmo. Pashupáti, o Senhor das Feras, é a primeira manifestação de Shiva de que temos conhecimento. A sua reprodução mais antiga, de 2500 a.C., foi encontrada nas ruínas de Mohenjo-Daro, no Vale do Indo.

Interpretando a imagem, diz Van Lysebeth: ” Shiva, princípio criativo masculino, é um dos símbolos mais poderosos e mais antigos (…).” (Tantra , o culto da Feminilidade, Editora Summus). E como conclui Stuart Piggott: ” Não existe dúvida de que temos aqui o prótotipo de Shiva na função de senhor dos animais selvagens e príncipe dos yôgis.” (Preshistoric India, Penguin Books).

Provavelmente, durante a formação do hinduísmo (a partir de 1500 a.C.) surgiram duas novas designações de Shiva que se tornaram conhecidas mundialmente: Shiva Shankara e Shiva Natarája.

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Shiva Shankara

Shankara, apresenta-se em padmásana, sentado sobre a pele de um tigre. Possui um colar de rudrákshas e uma serpente enrolada nos seu braços. Da sua cabeça, nasce o Gangá (o rio Ganges, representado por um esguicho de água). Porta o trishúla, o damaru, o ardha-chandra e o linga. Ao fundo, observamos a cordilheira dos Himalayas, bem como vários outros símbolos minuciosamente descritos pelo folclore hindu.

A figura em si representa o yôgi asceta, um jíva mukta, um liberado em vida, isolado nas mais altas montanhas do planeta. Ao meditar em Shiva Shankara, transcende-se a dualidade da Natureza, ultrapassam-se os limites do prazer e da dor, do bem e do mal, da vida e da morte, do tempo e do espaço.

Shivasha

Shiva Natarája

Natarája significa rei dos bailarinos. Ele figura no centro de um círculo de fogo, pisando o “demónio” da ignorância. Numa das suas mãos, há um pequeno tambor, o damaru, com o qual marca o ritmo do Universo. Os seus vários braços sugerem movimento.

Natarája é a manifestação de Shiva envolvido na trama do mundo, integrado à existência dos outros seres. É o oposto de Shiva Shankara, isolado nos Himalayas em ascetismo. Natarája representa aquele que vive, trabalha, luta e actua na sociedade e, ao mesmo tempo, acha-se plenamente consciente da efemeridade nela contida. O yôgin que medita na forma Natarája  não precisa retirar-se do mundo para conquistar a meta do Yôga.

Ao identificar-se com ele, o praticante de SwáSthya realiza obras de arte com o corpo, tornando-se numa escultura viva em movimento, sintetizada em belas coreografias. Como um elegante dançarino de perfeitos movimentos, Natarája convive magistralmente integrado consigo mesmo, com os outros seres e com o Universo.

Da mesma maneira que Pashupáti e Shankara, existem diferentes interpretações para Shiva no seu aspecto Natarája. Através dos tempos, encontramos na mitologia hindu inúmeras lendas e contos para cada uma dessas imagens, bem como para os símbolos que as acompanham. Embora os estudo dos mitos possa conter um fundo de verdade e satisfazer a nossa curiosidade intelectual, para aquele que pratica o Yôga Antigo, é indispensável meditar sobre o objecto com o qual se identifica, pois a teoria que tudo explica, só faz confundir o real entendimento e desacelera a autêntica evolução.

Shivan

Adaptado do livro A força da Gratidão, Sérgio Santos.

Transgressão e Transcendência

Um dos mais eficientes dispositivos psicológicos do Tantra é a prática da transgressão. Como a vida é naturalmente eivada de restrições que estabelecem limites e mais limites, acumulativamente, desde os primeiros meses de idade e pela vida afora, permitir-se transgredir algumas normas tem um poderoso efeito de catarse, bastante utilizado em psicoterapia.

Evidentemente, vivendo em sociedade não podemos suprimir as normas, leis e regulamentos. Contudo, as restrições sucessivas e compulsórias terminam por gerar efeitos colaterais nem sempre desejáveis. Nesses casos, transgredir algumas normas pode ter efeito terapêutico ou profilático para evitar certos problemas emocionais, às vezes bem graves, que custariam caro se chegassem a requerer assistência de um terapeuta.

Se você comprime energia, ela se torna perigosa e tende a explodir. Coloque um pouco de pólvora sobre uma superfície e ponha fogo: ela fará puff e provavelmente não machucará ninguém. Mas se colocar essa mesma quantidade de pólvora dentro de uma cápsula de metal e obliterar a saída dos gases com uma tampa de chumbo, ao ser detonado o explosivo fará bang e poderá matar alguém.

Quando as repressões ultrapassam o limite de resistência de uma pessoa, ela explode. Essa explosão pode ser para o lado do corpo, na forma da somatização de alguma enfermidade física (autodestruição); ou pode ser para o lado do psiquismo, elaborando intrincadas estruturas de comportamento anti-social (heterodestruição). É aí que surgem os criminosos comuns e, em casos mais complexos, os psicopatas.

Não temos a pretensão de afirmar que a técnica da transgressão possa evitar todos os casos de criminalidade ou psicopatologia, mas seguramente atenuaria um bom número de quadros.

Quando alguém pisa o pé de um brahmácharya típico, ele nem pisca, não contrai um músculo e não reclama. Ele pensa: “Esse meu irmãozinho não fez de propósito e não percebe que está me machucando. Mas eu faço Yôga, portanto, sou controlado e não vou reclamar. Ele vai acabar percebendo que está me pisando e sairá de cima do meu pé. … É, mas ele não está percebendo. E continua doendo. Coitado, não está fazendo por mal. O que é que eu vou fazer? Devo evitar um constrangimento. Não, não vou reclamar. Eu agüento! … Por outro lado, francamente, será que esse imbecil não vê que está me pisando?” E, finalmente, quando toma uma atitude, a reação costuma ser mais agressiva e até neurótica.

Quando alguém pisa o pé de um tântrico autêntico, ele diz imediatamente: “Opa! Cuidado que o de baixo é meu!”. Os dois sorriem e dali pode surgir uma boa amizade. Como não houve repressão, não ocorre a explosão, nem para dentro, nem para fora. A energia emocional escoa naturalmente.

Sendo o Tantra uma filosofia libertária, elaborou há muitos séculos um recurso que consiste em, conscientemente, sob o controle de um especialista, arquitetar circunstâncias inócuas em que normas sociais possam ser transgredidas sem prejuízo de ninguém e sem que isso caracterize uma ação ilegal. Estamos falando da linha branca, é claro. A linha negra aproveitou o pretexto para adotar atitudes socialmente escandalosas ou ilegais, mas esse procedimento não é endossado pela nossa tradição.
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Se não devemos descumprir as leis jurídicas, de que adianta a prática da transgressão? Adianta, e muito, por exemplo, quando um subordinado enche a boca e diz um sonoro não ao chefinho intransigente; ou quando o jovem, que teve de seguir ordens e restrições dos pais a vida inteira, reage e toma uma atitude revolucionária em relação aos costumes da família; ou quando alguém abandona a faculdade que não lhe trazia satisfação pessoal, ou troca de carreira profissional; ou ainda quando se adota uma moral diferente da que é praticada pela sociedade onde se vive. O Tantra é, por excelência, a arte de assumir uma moral distinta da utilizada pela maioria. O seguidor do Tantra Negro é uma ovelha negra, mas o adepto do Tantra Branco não é sequer uma ovelha!

Tornar-se vegetariano é um bom exemplo de contestação por uma boa causa. Além de não prejudicar ninguém, nem ser ilegal, essa transgressão alimentar ainda beneficia a saúde e conta com um louvável componente ético.

Texto do Escritor DeRose

Nota:
Tanta é uma filosofia comportamental de características matriarcais, sensoriais e desrepressoras. Tem origem dravídica e mais de 5.000 anos de antiguidade. Tantra é a arte de conhecer-se a si mesmo através do outro.
O termo Tantra significa: net, rede, tecido ou teia, ou a trama do tecido; regulado por uma regra geral; o encordoamento de um instrumento musical. Outra tradição é “aquilo que esparge o conhecimento”. Ou ainda, segundo Shivánanda, explica o conhecimento relativo a tattwa e mantra, por isso se chama Tantra.

Púrusha

Segundo o Sámkhya, filosofia especulativa naturalista que surgiu na Índia há 5000 anos, existia no início do cosmos apenas uma partícula condensada de consciência, que eles chamaram de Púrusha, que se traduz por homem.

Essa essência absoluta não era afetada pelas dualidades que vivemos em nossas vidas. Para ele não existia certo nem errado, claro ou escuro ele somente observava e simplesmente era, não interagia, nem era afetado por coisa alguma. Para o Púrusha os conceitos não se dividiam em pares de opostos, ele permanecia sendo o que era eternamente em todos os lugares que existiam. Em um determinado momento, essa essência de consciência sentiu necessidade de se manifestar.

Nenhum texto relata a razão pela qual esse Púrusha que era livre, perene, estático e apenas observava, sentiu essa vontade de modificação e nem quando isso ocorreu. Temos que aceitar o fato que alguns acontecimentos vão além do que nossa mente racional pode compreender, e aceitar que simplesmente assim foi. Tanto o Sámkhya quanto o Yôga não se preocupam em responder tais questões e sim libertar o EU de tal relação. O profano não consegue perceber que seu Púrusha é estável e que apenas observa. Ele se depara constantemente com a agitação do seu emocional e não pode conceber que há por trás disto um ser perene e eterno, inabalável pelas situações externas.

O Púrusha reflete-se nas emoções e nos pensamentos, muito embora ela seja essencialmente diferente deles. Tal relação cria a maior de todas as ignorâncias, a confusão do ser com o não-ser, em outras palavras da Prakriti com o Púrusha. O que ocorre é que o reflexo do Púrusha parece agitar-se quando se envolve com a Prakriti, assim como o reflexo da lua vista na água do mar faz parecer que ela se movimenta constantemente.

Muito embora o SER não faça parte da Natureza, ele se manifesta através da consciência que servirá sempre como uma bússola nos conduzindo para o que nos fará sentirmos melhor e mais perto da libertação. Quando somos crianças nos sentimos mais perto desta manifestação real do EU. A educação e a convivência com outras pessoas vão fazendo com que nos distanciemos daquilo que realmente somos e isso invariavelmente gera dor. Dor esta que será um forte alerta de que estamos nos distanciando de nossa essência. Quanto mais dor, mais longe estamos do nosso EU. No entanto, o motivo é realmente intrigante.

Por que esse Púrusha, livre e desimpedido acabou gerando algo que modificou totalmente a existência do universo e ainda o prendeu em tal criação? Como esse tipo de consciência está muito acima de nosso intelecto é impossível entender tal conceito por meio de uma ferramenta racional. O compreenderemos em absoluto apenas quando atingirmos um nível muito elevado de lucidez, onde não há tanta interferência dos fenômenos e assim se torna possível compreendê-lo na totalidade. O que nossa razão pode por ora fazer são especulações que apenas nos aproximarão das constatações feitas pelos antigos sábios sobre as origens do universo.

Entenderemos tudo isto, apenas através de nossa intuição, estado de consciência situado acima da mente.

Poema ao Púrusha

“Vem da sua alma o que é perene.

Um arco-íris que fica e uma encantadora beleza que penetra.

Passa longe da sua existência o que se esvai o que estraga e extingue-se.

A desgastante instabilidade não existe, e dá lugar a um deleite de SER e não de ter ou estar.

Estar ao seu lado é travar contato com o que de mais perfeito a natureza conseguiu manifestar.

Ou estarão tais atributos de SER acima dela mesma?

Não me importarei ou conseguirei desvendar tamanho mistério, me gratifico apenas em me aproximar e existir ao lado teu.”

Texto do Instrutor Daniel DeNardi

Para entender melhor os conceitos de púrusha, prakriti, e sámkhya, sugerimos a leitura do livro “Yôga, Sámkhya e Tantra” do Prof. Sérgio Santos

O Sámkhya e o Yôga

O Sámkhya é considerado o mais antigo de todos os sistemas filosóficos da Índia. Tem-se Kapila como seu fundador, lá pelo século VI a.C., embora se tenha descoberto em escritos anteriores ideias incorporadas posteriormente à doutrina Sámkhya. Assim como o Yôga clássico, o sistema Sámkhya surgiu de uma tradição oral bem mais antiga. No Rig-Veda, no Mahabhárata, nos Upanishads e em outros textos, encontramos um fundo comum que originou os três principais sistemas ortodoxos: o Sámkhya, o Yôga e o Vêdánta. Semelhantemente ao Yôga, o Sámkhya dividiu-se em várias correntes e encontrou períodos de renascimento e expansão, possuindo vários textos e pensadores importantes. (…)

O termo Sámkhya pode ser tomado em vários sentidos; sua raiz tem a ver com a palavra “número”, adquirindo a partir daí o significado de “enumeração” e “classificação perfeita”. A “classificação” aqui entendida deve ser a complexa cosmogonia Sámkhya, que toma o universo como o desenvolvimento de vinte e quatro princípios. Todos estes princípios surgem de um dualismo fundamental entre Purusha (espírito) e Prakrití (matéria). No seu desenvolvimento, o universo une os dois pólos, que no homem são responsáveis pela ignorância e o sofrimento. A libertação humana consiste em novamente separar espírito e matéria, por isso Mircea Eliade toma o termo Sámkhya no sentido de “discriminação”.

Não se pode escrever sobre Yôga sem tratar do Sámkhya, tamanho são os vínculos entre uma escola e outra. Muitos subestimam o Yôga, atribuindo ao Sámkhya todas as suas idéias filosóficas importante, mas não nos parece assim. Ao mesmo tempo que o Yôga tomou do Sámkhya grande parte de sua metafísica e certos aspectos da sua psicologia, não podemos desconsiderar profundas divergências que encontramos entre ambos. O Sámkhya é às vezes chamado de Niríshwara-Sámkhya (o Sámkhya sem Íshwara) em contraposição ao Yôga, muitas vezes chamado de Sêshwara-Sámkhya (o Sámkhya com Íshwara). Ou seja, toma-se as escolas como se compusessem uma mesma metafísica, com a única diferença que, enquanto o Sámkhya é ateu (sem Íshwara – o Senhor), o Yôga é atenuadamente teísta (com Íshwara – o Senhor). Porém, o Sámkhya não é completamente ateu, nos textos mais antigos do Sámkhya a idéia de Deus era contemplada, posteriomente é que esta idéia foi tão individualizada que Deus passou a ser sinônimo de espírito humano individual. Sem negarmos a imensa influência do Sámkhya sobre o Yôga e outras escolas filosóficas hindus e gregas, devemos reconhecer que, enquanto o Sámkhya se baseia na tradição escrita, o Yôga se funda na tradição oral e na experiência direta. No Sámkhya e no Vêdánta a percepção da verdade é um discernimento (viveka), enquanto no Yôga a verdade é a experiência do êxtase (samádhi). Devido a isso, o Yôga possui uma ontologia mais sintética e prática, faz uso de uma terminologia menos metafísica e mais voltada à aplicabilidade existencial. Ambas as escolas se completam mutuamente; encontramos no Mahabhárata:

“Não há conhecimento como o Sámkhya, não há poder como o Yôga.”.

Apesar das diferenças por nós apontadas entre Sámkhya e Yôga, torna-se impossível separar completamente esta filosofias, escrever sobre Pátañjali implica comentarmos também o Sámkhya, como: a dor universal, a criação (de cunho teológico e fruto da ignorância), a relação do espírito com a matéria, a estrutura da vida psíquica, a libertação humana, e o tema de nosso trabalho – a consciência. Todos estes temas se referem de algum modo ao problema da consciência, e serão abordados um a um no decorrer de nossa tarefa.Nela são particularmente importantes os conceitos de Purusha e Prakrití, pois manipulando a interpretação dos mesmos nós faremos considerações sobre: a consciência, o ser e o conhecimento. Diz o Bhagavad-Gíta:

“Ao contrário do sábio, o ingênuo acredita que o método Sámkhya e o Yôga são coisas distintas. Quem se aplica devidamente a um deles colhe o fruto de ambos.”

Extraído do livro Yôga e Consciência, de HENRIQUES, Antônio Renato