Dia 6 de Dezembro – Ecologia e Yoga

Calendário do Advento
Reflexão

Texto de Georg Feuerstein
Fonte: Livro – Tradição do Yoga

Editora: Cultrix

“Todas as formas de vida são ligadas entre si e dependem umas das outras. É esse o tema da ecologia. Em palavras simples, a ecologia é o estudo dos relacionamentos vitais entre os vegetais e animais (ou seres humanos) e o ambiente em que vivem. Muitas vezes, a palavra é usada para designar o próprio nexo que liga o ser vivo ao ambiente, embora a ecologia seja, a rigor, o estudo desse nexo.

Nosso planeta já foi comparado a uma espaçonave gigantesca cujos recursos são limitados. É verdade que os recursos da Terra não são inexauríveis, mas há um outro fato muito importante: nosso planeta natal é muito mais complexo do que poderia ser qualquer implemento tecnológico. Ele é, como lembrou à nossa geração o biólogo James Gordon Lovelock, um organismo vivo, que ele chamou de “Gaia”. Sendo um organismo vivo, a Terra é um sistema de forças cuidadosamente equilibradas.

No decorrer das décadas passadas, esse equilíbrio foi gravemente perturbado por padrões de vida antiecológicos, característicos sobretudo dos chamados países “civilizados”, que geraram a chamada “crise ecológica”. Muitos fatores contribuem para essa crise, e entre eles podemos destacar a superpopulação, a má distribuição da população (ou seja, o gigantismo das áreas metropolitanas), o consumo excessivo, o desperdício, o mau uso da tecnologia e, sendo este um dos principais problemas, uni pensamento egoísta e imediatista.

O que tudo isso tem a ver com o Yoga? Tudo. O Yoga é intrinsecamente ecológico. Todo Yoga é aquilo que já se chamou de “Eco-Yoga”. Nas palavras do Bhagavad-Gitâ (11.48), Yoga é equilíbrio (samatva). Essa palavra não precisa ser compreendida somente no âmbito psicológico. Quando temos o equilíbrio interior, temos também o equilíbrio em relação ao ambiente. Isso se confirma pelo código moral do Yoga, abrangente e rigoroso, que abarca todos os aspectos das relações do praticante com seu ambiente e com os outros seres vivos.

Esse código se consubstancia nas cinco disciplinas morais (yama): não cometer violência, praticar a veracidade, não roubar, respeitar a castidade e não cobiçar. Assim, a não-violência (ahimsâ) consiste numa reverência por todas as formas de vida. Isso implica, por exemplo, a escolha de um estilo de vida que não prejudique o hábitat de outras espécies animais. Além disso, quando levamos a sério essa regra, temos de adotar uma dieta vegetariana. Caso isso não seja possível, temos ao menos de garantir que nosso consumo de produtos derivados de animais (carne, ovos e laticínios) não colabore de modo algum com a cruel prática da criação animal industrializada.

A regra yogue do não-roubar (asteya) implica, por exemplo, que não peguemos para nós mais do que o necessário para atender as necessidades do nosso complexo psicossomático. São poucos, porém, os que se dispõem a adotar o modo de vida espartano com o qual os verdadeiros yogins estão acostumados. Por outro lado, existem muitas coisas que podemos fazer para nos adaptar a essa obrigação moral. Assim, podemos evitar o que se chama de “consumismo” e que inclui o abominável desperdício de alimentos. Podemos aprender a usar aquilo que temos de sobra (e cujo destino é na maioria das vezes a lata de lixo) para melhorar as condições de vida de nossos semelhantes menos afortunados.

Do mesmo modo, a regra moral do não-cobiçar (aparigraha) é compreendida como uma exigência abrangente de que o homem se relacione com a vida de maneira equilibrada, sem querer tudo para si, respeitando o direito dos outros de partilhar dos recursos do nosso planeta. O viver consciente é um equilíbrio entre o dar e o receber. Assim, por exemplo, quando cortamos uma árvore num terreno nosso, ternos o dever de plantar pelo menos mais uma árvore. O pensamento eco-yogue exige de nós que colaboremos para repor os recursos utilizados.

A exigência yogue de pureza (shauca), que é uma das regras de autodomínio (niyama), também pode ser compreendida num sentido ecológico mais amplo. Temos de fazer todo o possível para eliminar a poluição em nossa própria vida e para apoiar os esforços em prol da limpeza do ambiente em geral.

O “Eco-Yoga” é um conceito que hoje designa a necessária convergência entre a espiritualidade yogue tradicional e o ativismo social que gira em torno das preocupações ecológicas. No começo do terceiro milênio d.C., estamos diante de uma crise ambiental cada vez mais grave que afeta profundamente a vida de todos. Já não podemos nos dar ao luxo de adotar o quietismo como postura de vida. Temos também de assumir a responsabilidade pelo ambiente em que vivemos, e isso significa reavivar em nós a ideia de que este planeta é sagrado e participar ativamente do seu processo de recuperação ecológica.

Do ponto de vista metafísico, o desafio com que deparamos é o de aprender a respeitar tanto a transcendência quanto a imanência. Para dar um exemplo concreto, não podemos ter a menor esperança de conhecer a nós mesmos e muito menos a Divindade, enquanto deixarmos que as pilhas de detritos e os poluentes tóxicos que infestam o ar bloqueiem nossa visão. Temos, antes, de aprender a cooperar com a Natureza, a qual é a própria base do esforço espiritual que temos a pretensão de fazer. Temos de estar dispostos a mostrar fidelidade não só ao caminho espiritual que escolhemos, mas também ao mundo em que vivemos.

Segundo a tradição do Tantra-Yoga, o corpo é um instrumento precioso para a realização da Divindade ou da Realidade. Temos de reconhecer, da mesma maneira, o imenso valor do nosso planeta. A Terra é o nosso corpo e é o único que temos. Destruindo-o, é como se nos suicidássemos. Vou apresentar agora algumas diretrizes para o cultivo do processo eco-yogue.

Levar uma vida mais simples, mais sensível a ecologia.

     Temos de avaliar nossos hábitos de consumo e ver o que podemos fazer para diminuir o consumo de energia e a poluição no nosso ambiente imediato. Podemos, por exemplo, nos perguntar: preciso deixar tantas luzes acesas? Realmente preciso ligar o ar-condicionado ou o aquecedor, ou posso isolar melhor a minha casa e assim diminuir o desperdício de energia? Preciso usar o automóvel com tanta freqüência ou posso planejar com mais cuidado minhas saídas, ou mesmo combinar um rodízio de carros com os amigos? Preciso dar a descarga toda vez que uso o banheiro e tomar um banho de quinze minutos todos os dias? Não poderia reciclar latas e garrafas? Será que realmente não tenho dinheiro para comprar alimentos orgânicos e mais saudáveis? A preguiça realmente me impede de usar os resíduos vegetais para fazer adubo composto no jardim? E por aí afora. As grandes mudanças começam quando fazemos as coisas “pequenas” – agora.

      Unir forças com um grupo ecológico local e passar a ter alguma atividade política. O Yoga não é mera interioridade. Tampouco é incompatível com a atividade política. Com excessiva frequência, os praticantes de Yoga preocupam-se apenas com a própria salvação e ignoram o contexto maior em que vivem. Em última análise, essa atitude é egoísta e contrária ao espírito do Yoga, além de ser contraproducente. Isso porque o ambiente se impõe a nós. Como, por exemplo, cultivar o controle da respiração numa cidade onde o ar é poluído? Como conservar sadios o corpo e a mente quando o solo onde cresce o nosso alimento é envenenado por substâncias químicas nocivas? Como alcançar a imobilidade interior necessária à meditação e à oração quando nossos tímpanos são constantemente bombardeados pelo ruído dos carros e dos aviões? No mínimo, temos o dever de dar apoio a grupos de ativistas como o Greenpeace, o Amigos da Terra, o Sierra Club, a National Wildlife Federation ou o Elmwood Institute.

     Cultivar o autoconhecimento, lançando luz sobre os motivos que nos levaram a tomar o caminho espiritual; e ter disposição para reconhecer e trabalhar as tendências neuróticas que se disfarçam de ideais espirituais. Não podemos confiar irrefletidamente na ideia que temos de nós mesmos; temos de consultar pessoas sábias e benignas que possam servir de espelhos fiéis do nosso caráter. A falta de autoconhecimento frequentemente nos leva a agir erroneamente.

     Estudar as tradições espirituais do mundo inteiro a fim de aprofundar a compreensão do caminho que adotamos.

     Isso nos ajuda a apreciar a complementaridade das tradições religiosas e espirituais deste nosso mundo. Faz diminuir também a tendência à parcialidade, ao sectarismo, ao elitismo espiritual e a outras formas de exclusivismo. Pode, enfim, nos ajudar a cultivar as virtudes admiráveis – e, na verdade, essenciais – da compaixão e da tolerância, que facilitam a cooperação e o viver ecológico.
Ficar em contato com o ambiente natural. A vida na cidade seduz as pessoas e as leva a ter uma relação abstrata com a Terra. E importante encostar no solo, cuidar de flores ou de árvores, provar a água pura das vertentes de montanha, ver de perto a exuberância da vida selvagem e assim por diante. Sem esse “aterramento”, a interioridade muitas vezes não passa de uma fuga neurótica. Para sermos completos, precisamos não só da bênção do Céu no interior, mas do toque da Terra no exterior, que nos transforma.

      Recordarmo-nos todos os dias de que a vida é um dom precioso que não pode ser desperdiçado, dissipado ou mal utilizado. Se o nosso coração está aberto, a gratidão e o louvor fluem naturalmente dos nossos lábios. De maneira geral, a educação ocidental não nos predispõe a expressar nossa gratidão (nem as demais emoções) e nos ensina antes a criticar do que a louvar. E claro que não há necessidade de omitir as críticas que precisam ser feitas, mas essas críticas, muitas vezes, são melhor recebidas quando são temperadas com a compaixão e o louvor (o qual pode ser visto como uma forma ativa da compaixão).

     A vida no mundo pós-moderno nos feriu a todos de uma maneira ou de outra, e a necessidade de cura é intensa. O louvor e as expressões de gratidão são meios excelentes para aliviar o sofrimento (duhkha) e promover a esperança. Quando vemos a vida como uma oportunidade espiritual pela qual somos gratos, o mundo deixa de ser nosso inimigo. Não deixamos de colher a nossa parte do karma coletivo nem de sofrer com a exploração da Terra, mas começamos por outro lado a sentir uma afinidade mais profunda com todas as pessoas, seres e coisas – afinidade essa que é em si mesma uma cura. Tornamo-nos verdadeiros cidadãos do ecossistema cósmico; nosso voto, que decidirá o futuro desse ecossistema, é dado a cada momento pela maneira como vivemos.”

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