O velho sábio

“Certa manhã, fui tirar leite da nossa búfalo que pastava solta perto das margens do rio. Caminhando pelo campo com os pés descalços na relva molhada pelo orvalho da noite, tão absorvido estava que passei pelo animal e segui em frente. Pouco adiante, encontrei um velho sábio sentado olhando para as águas que seguiam, sempre iguais, montanha abaixo. Cumprimentei-o e perguntei o que estava observando. O ancião me disse que estava observando seus pensamentos. Sentei-me ao seu lado e, como uma criança, sem nada questionar, comecei a fazer o mesmo. Passaram-se várias horas e lá estávamos os dois, lado a lado, sem dizer palavra, porém entendendo-nos perfeitamente bem.

Até que, em dado momento, o ancião virou-se para mim e começou a falar.

– O que observou?
– Meus pensamentos.
– Gostou?
– Sim.
– De que natureza eram?
– De todos os tipos. Pensei nas águas obedientes, que seguem fazendo as ondas no mesmo lugar, apesar de serem sempre outras. Depois pensei na nossa vida, que também é assim. Somos sempre outras e outras pessoas a nascer, crescer, trabalhar, casar… mas seguimos fazendo as mesmas coisas, sem que ninguém nos obrigue a isso. Daí, pensei nas nossas ovelhas, cabras e vacas, que também seguem fazendo as mesmas coisas desde que nascem até que morrem. E seus descendentes, continuam fazendo as mesmas coisas. Qual o sentido disso tudo?
– Você se fez essa pergunta?
– Fiz.
– E qual foi a resposta?
– Não obtive resposta, pois meu pensamento seguiu os pássaros e mudou continuamente. Mas gostei da experiência.
– Então, volte amanhã e vamos contemplar o rio juntos outra vez.

Assim o fiz. Durante muito tempo retornei e sentei-me ao lado do ancião. Era uma relação de amor. Desde a primeira vez que o vi, senti um carinho arrebatador por aquele Mestre. Olhava-o com admiração gratuita, pois ainda não o conhecia suficientemente bem. Não sabia o universo de sapiência que ele tinha para me transmitir. Era, simplesmente, amor desinteressado, à primeira vista.

Quase sempre ficamos calados por muito tempo. Geralmente, no final ele me fazia algumas perguntas. Depois de uns quantos meses notei que suas perguntas eram o que me permitia tomar consciência de quão profundo havia ido na viagem interior.”

DeRose, em Eu me lembro

04-eremita1

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