O poder da palavra

Certa vez, a população de um vilarejo distante, organizou uma corrida de sapos. Todos os anfíbios foram colocados em linha e foi dada a largada. Deveriam se dirigir ao topo de uma montanha. Enquanto isso, as pessoas que assistiam, berravam: “Você não vai conseguir; desista, sapo infeliz”. E, um a um, eles foram parando, acreditando nas vozes que vinham de fora. No entanto, havia um que nem sequer estremecia, mantinha-se focado e determinado. Os competidores e o público não entendiam. Ao final da prova, foram falar com o sapo… ele era surdo!
Essa antiga parábola tem a função, dentre outras coisas, de ilustrar e nos relembrar o tremendo impacto que as palavras (nossas e dos outros) exercem sobre nós; o perigo de se acreditar naquilo que escutamos a nosso respeito e a armadilha de não mais confiarmos em nós mesmos.

supere-se

Ora, quantas vezes lhe disseram que não seria capaz disso ou daquilo e você acreditou sem nem tentar? E quantas vezes você disse que ia fazer algo e não fez? As duas questões acima são importantes e merecem reflexão. No entanto, dessa vez discorreremos somente sobre a segunda.
O substantivo feminino ‘palavra’ vem do latim ‘parábola’ e significa som, termo, vocábulo, compromisso verbal. Esta última definição me chamou muito a atenção, pois era justamente esse o tema do meu artigo. Com o passar do tempo, a honra e o compromisso com a palavra foram completamente esquecidos nos escombros de nossos mais simples e verdadeiros valores. Claro, o mundo todo mudou. A tecnologia nos conduz a soluções e problemas cada vez mais impensáveis; a globalização nos conecta com o mais longínquo vale do planeta e, ao mesmo tempo, enforca tradicionais identidades culturais. No entanto, há algo que não deveria mudar, mas tem se perdido no escoar do incessante progresso: nossa essência. Hoje em dia, a expressão “homem de palavra” parece mais título de filme de Hollywood.

O negócio é que não percebemos que, quando não cumprimos aquilo que falamos através da articulação dos sons, não ofendemos somente aos outros, mas principalmente, enganamos a nós mesmos.
Desde quando nascemos, somos “ensinados” a não realizar aquilo que dissemos. Quando crianças, observamos nossos pais dizerem a seus amigos: “Olhe, essa semana passo lá para botarmos a conversa em dia”. E todos sabem que dificilmente essa reunião irá acontecer, afinal, como dizem por aí, foi só da boca pra fora. Vamos crescendo e aprendendo que muitas vezes; na verdade, na maioria delas, as pessoas dizem por dizer; não possuem o mínimo compromisso com a palavra. E essa próxima situação, lhe soa familiar? Conte as vezes que você disse ou escutou alguém te dizer: “eu te amo” e mudar de opinião no dia seguinte. Afinal, é cultural, não é. Todo mundo faz assim! Talvez tenhamos aprendido com os políticos.
No contemporâneo território dos negócios, só falta assinarmos contrato para assegurarmos que o outro vai nos ligar no dia seguinte. Imagine a seguinte situação: “te ligo amanhã” e o outro responde: “não acredito, assine aqui”. Obviamente, não estou pregando ingenuidade em nenhum sentido, até porque, não há lugar pra isso no mundo de hoje, mas estamos chegando às raias do absurdo de não poder mais acreditar em nada do que falam, e isso se deve principalmente por nossa culpa.
O avô de um amigo costumava dizer para tomarmos cuidado com o que dizemos, pois as palavras quando saem de nossas bocas dobram de tamanho, tornando-as impossíveis de engoli-las de volta.
Mas a pior mentira é aquela que contamos pra nós mesmos. A cada palavra dita e não cumprida, a cada projeto elaborado e deixado para trás, a cada vernáculo solto aos quatro ventos, é um voto a menos que você deixa de angariar nas empoeiradas urnas de sua psiquê.

Lembra quando disse que ia passar de ano; que estaria na festa de 15 anos do seu amigo; de que assistiria a final do campeonato do seu time favorito, custasse o que custar; que ia conseguir aquele trabalho, que afinal dependia somente de você; que no mês que vem ia parar de fumar e começaria a praticar Yôga, que ia concluir a pós-graduação de qualquer jeito; que ia dedicar mais tempo a pessoa amada, que ia e ia e ia..
Bem, procure perceber que isso tudo gerou em você, anos de condicionamento negativo. Toda vez que sinceramente se propõe a fazer algo, você deixa de contar com seu melhor parceiro: você mesmo! Cada vez que diz que vai, lá no fundo do seu ser, ecoa um sussurro: “Ah, lá vem ele de novo a mentir pra mim, me deixe continuar aqui no meu sono profundo, pois essa estória, todos nós já conhecemos o final”. Amigo, confie em mim; isso não é nada bom.
Claro que não vou finalizar a coluna de forma pessimista. Portanto, minha sugestão é a seguinte (experiência própria): quebre o fluxo contínuo desse ato. Crie outro tipo de condicionamento. Primeiro, tome o cuidado de dizer somente aquilo que poderá executar (caso tenha dúvidas se conseguirá, não diga). Inicie, pelas coisas mais simples. Por exemplo: se balbuciou que no domingo iria à confeitaria.. vá!, não importe o que aconteça. Se disse que passaria uma semana sem comer doces, cumpra o prazo pré-estabelecido. E assim, passo a passo, ou melhor, palavra a palavra. Acredite: em um ano, ficará surpreso com o enorme poder que emana de sua boca. E agora, o que é que tens pra me dizer?

Prof. Fábio Euksuzian

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