Sobre o desapego

” – Vou-lhe contar um caso verídico. Certa vez eu estava no mosteiro do Dr. Sivánanda…

– Doutor?

– Sim. Ele era médico oftalmologista. Posso continuar?

– Pode

– Às nove da manhã, todos os dias, o Swámi Krishnánanda, um importante filósofo hindu, reunia os alunos e visitantes para conversar descontraidamente. Essa era a hora de receber ensinamentos, levar broncas publicamente e também era a hora do swámi assinar cheques e tomar decisões administrativas. No início isso me chocou, mas depois compreendi que não tem nada de errado nisso. Por que uma decisão contábil não tem a ver com as grandes questões existenciais? Tudo faz parte…

– Não concord…

OLHA!

– Desculpe.

– Os swámis são monges, geralmente renunciantes. Para simbolizar a renúncia, raspam a cabeça. No entanto, alguns monges com hierarquia mais elevada contam com  determinados privilégios e mordomias que não são bem compreendidas pelos estrangeiros. Krishnánanda já estava meio impaciente com alguns comentários feitos por espiritualistas ocidentais – questionadores compulsivos – que, inevitavelmente, chegavam aos seus ouvidos cinco minutos depois. Coisas do género: “como é que um swámi pode ser tão autoritário com seus subordinados?” ou ” como é que um monge que diz ser renunciante pode receber tantos privilégios e os outros não.” Certo dia, um estado-unidense chegou para a reunião com a cabeça raspada, o que denota voto de renúncia. Aquilo incomodou profundamente o swámi. Ele perguntou: “Raspou a cabeça, uhn?” Quando o Mestre hindu fala com esse tom de voz, ninguém se atreve a responder a nem b pois, o que quer que diga vai levar uma bordoada. Dali a pouco o swámi volta a falar com ele: “Raspou com autorização de quem?” John não responde, apenas sorri com humildade e curva-se numa reverência colocando a cabeça no chão. Mais um pouco e o Mestre lhe pergunta : “Renúncia? Você renunciou a quê?” Ele bem sabia que os ocidentais inventam de renunciar, mas não renunciam de fato ao principal, que é o ego. Finalmente, Krishnánanda deu a maior lição da minha vida sobre renúncia: ” A renúncia é como o x da matemática. Quando você encontra o valor dele, não precisa mais usá-lo”.

– Não entendi.

– Não quis entender.

– O monge fez apologia a não renunciar?

– Não. Ele apenas fez uma crítica à atitude pueril, falsa e orgulhosa daquele que declara renunciar, mas só renuncia ao que é fácil. O ego fica intacto. E, ensinou também, que depois que você já não está mais apegado, pode usufruir de todos os confortos e privilégios.

– Em que isso se aplica a mim?

– Você precisa parar de se vestir como um mendigo com a desculpa de que é por desapego. Desapego, mesmo, eu quero ver é quando você tiver uma caneta Mont Blac e a perder. Ou quando você tiver um Mercedes e baterem no seu carro. Aí sim, vou dizer que você é um yôgin desapegado. Agora, faça o favor de passar num cabeleireiro e cortar essa juba. Depois, vá comprar umas roupas boas. E não me venha com essa estória de que não tem dinheiro, que isso é neurose de carioca.

– Mas isso tudo é ilusão.

– Só é ilusão quando estamos em estado de transcendência. Quando estamos submersos no reino de Maya, a ilusão incorpora valores verdadeiros.”

Retirado do livro Encontro com o Mestre, DeRose, Edições Afrontamento.

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