Mitologia Hindu I

O nascimento de Ganêsha

Conta a lenda que após Shiva e Parvatí se casarem, mudaram-se para viver em isolamento em meio as cavernas do Monte Kailash. Como já era de costume, Shiva, freqüentemente, sentia a necessidade de ficar sozinho e por isso, “perdia-se” por longos espaços de tempo nas gélidas florestas dos Himalayas; com isso, Parvatí, sentia-se cada vez mais abandonada.

Certo dia, a deusa banhava-se no lago Manasarovar, próximo do local onde residia. Tudo estava como de costume, quando em um ato de extrema vontade, ela começa a esfregar sua própria pele com pasta de sândalo (conhecida por seus efeitos afrodisíacos); de repente, do meio daquela poeira toda, brota um garoto que é logo batizado por ela de Vinayaka (aquele que é dito artificial). Identificaram-se em primeira instância, voltaram juntos à gruta e pararam em frente à caverna. Parvatí lhe disse: você é fruto de minhas entranhas, está aqui pra me fazer companhia e proteger, portanto, pegue este clava, fique guardando a entrada e não deixe ninguém perturbar minha meditação.

Algumas primaveras depois, Vinayaka avista um vulto se aproximar; era o próprio Shiva que retornava de seu retiro. Ao tentar passar por Vinayaka, é barrado pelo garoto. Shiva o questiona se ele sabe com quem está falando e, não obtendo nenhuma resposta do filho de Parvatí, Shiva, estupefato e irritado, conclama seu exército, os ganas, para auxiliá-lo a retirarem o moleque atrevido dali. Inicia-se uma pequena batalha. Shiva assiste incrédulo seu exército ser derrotado por um só garoto e, em um momento de descuido de Vinayaka, Shiva o degola com um golpe de seu tridente.

Neste momento, Parvatí, desconcentrada com toda aquela barulheira, saiu da gruta para checar o que estava acontecendo. Ao aproximar-se, avista seu filho caído ao chão, decapitado, enquanto Shiva limpava o sangue dos dentes de seu tridente. “O que fez com meu filho, o que fez com meu filho?”, bradava desesperadamente Parvatí. Shiva, ao perceber a gravidade da situação, ordenou que sua trupe trouxesse a cabeça do primeiro animal que encontrassem na floresta. Por obra do acaso, naquele exato instante passava por perto, um elefante, cuja cabeça foi eleita para ser a nova de Vinayaka, fazendo-o recobrar a vida. Shiva então, o rebatiza com um novo nome: Ganêsha (gana exército, isha, senhor), o senhor dos ganas.

Há um outro começo para este purana: As amigas de Parvatí reclamavam a ela que a trupe de Shiva só obedecia fielmente a ele e que precisavam de alguém do lado delas. Parvatí, para não entrar em conflito, não lhes dava ouvidos, até que certa vez Shiva adentrou com Nandi, sua fiel montaria, os aposentos de Parvatí, enquanto esta se banhava. Totalmente constrangida, decidiu criar um guardião…

O momento da batalha também difere entre uma versão e outra. Percebendo que estava difícil para o garoto, as companheiras de Parvatí, enviaram duas deusas para protegê-lo. Uma delas possuía uma boca enorme na qual engolia tudo o que era lançado sobre o rapaz, enquanto a outra lançava de volta os projéteis. Desta vez o menino recebe o nome de Vighnêshvara, o senhor dos obstáculos.

Elucidação: dentro da cosmogonia Tântrica, a dualidade primordial da Criação é formada por Shiva e Shaktí, principio imutável, amórfico, imortal e matéria cinestésica, criativa, simbolizada pela própria natureza, respectivamente. Neste mito, a esposa de Shiva, Párvatí, representa Shaktí, a natureza ilusória, na qual estamos todos imersos e deslumbradamente presos. Parvatí, símbolo de matéria perecível dá a Ganêsha um corpo físico e este, no entanto, não permite a entrada do pai na gruta, pois não o reconhece; afastou-se tanto que não mais conhece o próprio self, a realidade suprema. Tanto apego à mãe, simbolizada pela matéria (Shaktí) o faz defendê-la bravamente contra os avanços do pai, simbolizado pela essência primeva (Shiva). Vinayaka luta com Shiva pois não quer perder sua personalidade, moldada pela vivência fenomênica de Parvatí. Shiva decepa a cabeça (ego, mente, arrogância) de Vinayaka e insere uma nova no lugar. Esta nova cabeça do paquiderme representa o renascer daquele que está em busca do autoconhecimento, o alvorecer do mais puro e profundo entendimento de si próprio. Ganêsha acaba por se tornar um símboloperfeito da inteligência e memória (cabeça de elefante), da prosperidade (corpo redondo e ventre proeminente), da predileção ao escutar do que falar (orelhas grandes e boca pequena), do discernimento (tromba), do removedor de obstáculos (tamanho), daquele que transcendeu o mundo dos opostos (por ter uma de suas presas quebrada).

Texto extraído do livro Contos de Shiva do Professor Fábio Euksuzian

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